Jogamos cerca de 50 horas de Final Fantasy Resonance e, mesmo depois de tanto tempo, ainda havia bastante coisa para fazer. Entre missões secundárias, áreas opcionais, desafios e histórias para descobrir, o jogo mostrou que tem muito mais a oferecer do que sua campanha principal. Mas o que mais chama a atenção foi a maneira como ele resgata a essência dos primeiros Final Fantasy, sem abrir mão de algumas ideias que a série desenvolveu ao longo dos anos.
Final Fantasy Resonance é uma adaptação em HD-2D de Final Fantasy Brave Exvius, um jogo mobile que encerrou suas atividades no ano passado após anos de conteúdo e relativo sucesso. Em vez de simplesmente transportar a experiência original para outras plataformas, o novo jogo reconstrói sua narrativa, seus mapas e diversos elementos para funcionar como um RPG offline tradicional, abandonando seu passado como um jogo gacha. Final Fantasy Resonance porém, não adapta todas as histórias destes quase 10 anos de jogo, focando apenas no primeiro arco e quem sabe deixando a porta aberta para sequências.

O resultado é uma aventura que não parece depender de sua origem mobile para funcionar. Pelo contrário: Resonance tem personalidade própria e, em muitos momentos, parece uma homenagem aos RPGs que ajudaram a construir a identidade da franquia Final Fantasy.
Diferente de outros Final Fantasy que começam com uma cena em CGI clássica, aqui começamos com uma explosiva cena no estilo que a Square Enix batizou de “Cinematic Pixel Art” que como o nome sugere, são CGs que tentem fazer mímica do estilo pixel art e são simplesmente espetaculares.

O jogo começa com um prólogo intenso, com uma personagem misteriosa selando um poderoso mal em um acontecimento que passa a impressão de ter sido há muitos anos atrás. Entretanto, os reais heróis de nossa aventura são o comandante do esquadrão de Airships do reino de Grandshelt, Rain e seu amigo de infância Laswell, que seguindo uma tropo de jogos de RPG, são enviados pelo rei para investigar uma possível ameaça a um templo antigo. Sentiram umas vibes de Final Fantasy IV?

Porém, assim como em Final Fantasy II, nossa dupla de heróis é derrotada logo no começo do jogo e precisam entrar em uma jornada para se fortalecerem e entender realmente o perigo que assola o mundo. Logo no começo, uma jovem misteriosa e sem memória mas com grandes poderes mágicos se une aos heróis e pode ser parte importante disso tudo… Bem-vindo de volta Final Fantasy VI! Deu para sentir que os caras não estavam de brincadeira quando prometeram um retorno aos clássicos, né?
Uma aventura com espírito de Final Fantasy clássico
Quando foi anunciado, os produtores de Resonance disseram que a ideia por trás do projeto era: “Como seria se Final Fantasy não tivesse deixado os gráficos pixelados e o sistema de turnos de lado?” e parece que eles acertaram em cheio na proposta. Quem cresceu jogando Final Fantasy I a VI provavelmente vai reconhecer algo familiar em Resonance. A estrutura da aventura, a importância da exploração, o contato com NPCs e a maneira como as missões secundárias ajudam a desenvolver o mundo remetem à fase clássica da série.
Sabemos que alguns jogos recentes da série como Final Fantasy XV e XVI foram duramente criticados por suas sidequests, mas aqui existe uma satisfação particular em conversar com os habitantes das cidades, descobrir histórias paralelas e entender melhor as motivações de quem encontramos pelo caminho. As sidequests não servem apenas para prolongar a campanha: muitas delas acrescentam contexto à narrativa e oferecem recompensas úteis, como armas, magias, atributos e novas Visions – que em breve vamos explicar o que são.
Esse cuidado também aparece nos personagens. Sabe aquela sensação de ir avançando a história, ver novos membros sendo adicionados ao seu grupo aos poucos, cada um com suas próprias motivações? Isso é algo que os fãs sentiam falta há um bom tempo e está de volta aqui.
Falando deles, Fina, por exemplo, lembra Terra de Final Fantasy VI com sua falta de memória e poderes ocultos, enquanto Lid traz uma energia que remete a Rikku, de Final Fantasy X e Jake é aquele personagem mais galante, uma mistura de Edgar do VI com Irvine do VIII. Não se trata de dizer que são cópias de personagens anteriores, mas de reconhecer características que fazem parte do DNA da franquia.
A jornada ganha força justamente quando o jogo nos dá tempo para conhecer essas figuras e compreender por que elas continuam lutando ao lado do grupo. É uma aventura que encontra parte de seu encanto na convivência com os personagens e na descoberta gradual de suas histórias através de sidequests ou do Active Time Chat – recurso em que você pode ver conversas de interação entre os personagens que são liberadas depois de certos requisitos.
A adaptação também faz referências a outros títulos da série sem depender exclusivamente da nostalgia. Para quem acompanha Final Fantasy há anos, há um prazer adicional em identificar essas influências; para quem chega agora, elas funcionam como parte de um universo próprio.
Exploração que recompensa a curiosidade
Explorar é uma das atividades mais prazerosas de Final Fantasy Resonance. As cidades têm seus próprios detalhes, as dungeons são diretas mas incentivam a investigação mostrando baús em rotas paralelas e há diferentes atividades opcionais para quem deseja ir além da história principal.
As cavernas espalhadas pelo mundo são um exemplo interessante. Algumas ficam próximas a áreas abertas e escondem monstros poderosos, oferecendo um desafio para quem decide se aventurar fora do caminho indicado pelas missões. Muitas delas são pequenas e apenas uma linha reta até o grande inimigo, é verdade, mas cumprem o objetivo de dar mais dimensão ao mundo e recompensam jogadores dispostos a olhar além do objetivo principal. É possível verificar o nível recomendado antes de entrar nesses lugares para explorar e decidir se o desafio está a altura do seu nível atual.
As missões secundárias também têm um papel importante na progressão. Em vários momentos, avançar pela história não significa simplesmente acumular níveis até ficar forte o bastante para derrotar o próximo inimigo. É preciso considerar equipamentos, habilidades e recursos disponíveis. Além de serem uma forma de consumir mais conteúdo da história, desenvolvendo o mundo do jogo e personagens.
Em resumo, há bastante conteúdo paralelo para quem quer aumentar sua experiência com o jogo. O Coliseu oferece desafios adicionais, enquanto a busca pelos Tablet Shards ajuda uma personagem a recuperar fragmentos de seu passado em troca de recompensas. Já a Chamber of Arms reserva confrontos particularmente difíceis para quem deseja conquistar armas poderosas.
Nem todo conteúdo opcional tem a mesma profundidade, e algumas atividades são mais simples do que outras. Ainda assim, a variedade ajuda a manter a aventura interessante durante dezenas de horas.
Combate clássico com ideias modernas
Se a exploração remete aos RPGs tradicionais, é no combate que Final Fantasy Resonance mostra como essa estrutura pode incorporar mecânicas mais modernas.
As batalhas são por turnos, mas não se resumem a escolher um ataque e esperar pelo próximo comando. O sistema exige atenção às funções dos personagens, às habilidades disponíveis e às oportunidades de explorar as fraquezas dos adversários.
Uma das referências mais evidentes é o sistema de Stagger, que lembra a mecânica popularizada por Final Fantasy XIII. A ideia de pressionar o inimigo, explorar suas vulnerabilidades e criar oportunidades para causar mais dano acrescenta uma camada estratégica aos confrontos. Não vai ser apenas aqui que vemos um claro olhar a Final Fantasy XIII mas já retornamos nisto.

Essa combinação funciona bem porque preserva a leitura clara das batalhas por turnos, mas incentiva o jogador a pensar além da força bruta. Saber quando atacar, como preparar o grupo e quais habilidades utilizar pode fazer diferença, especialmente diante de inimigos mais resistentes. A presença das fraquezas elementais é um grato respiro após o Final Fantasy XVI ter dado mancada neste ponto.
As funções dos personagens também ajudam a construir essa estratégia. O sistema reúne papéis como Commando, voltado para causar dano; Medic, dedicado à cura e ao suporte; Sentinel, responsável por proteger o grupo, ser tank; Breaker, especializado em pressionar os adversários e aumentar o stagger; Synergist, que fortalece os aliados; e Saboteur, que aplica efeitos negativos aos inimigos.

A lógica lembra a divisão de funções vista em Final Fantasy XIII, mas é adaptada à estrutura de um RPG por turnos. Em vez de deixar que todos os personagens façam essencialmente a mesma coisa, o jogo incentiva a montagem de equipes capazes de lidar com diferentes situações através de várias possibilidades de customizar os personagens como veremos a seguir.
O resultado é um combate que consegue dialogar com duas fases da franquia: a simplicidade estratégica dos títulos clássicos e a busca por sistemas de batalha mais dinâmicos que marcou os jogos posteriores.
Visions, equipamentos e liberdade para montar o grupo
A personalização é outro aspecto importante da experiência. Ao longo da aventura, encontramos equipamentos com atributos variados, e nem sempre a peça mais recente disponível em uma loja será automaticamente a melhor opção.
Isso incentiva a pensar no que cada personagem precisa e em como seus atributos podem contribuir para a equipe. Dependendo do inimigo ou da área explorada, pode valer a pena priorizar características diferentes em vez de simplesmente equipar o item com os números mais altos.

As Visions ampliam essas possibilidades. No mundo do jogo, elas são como fragmentos da alma de outros heróis, alguns de outros mundos – como os personagens de outros Final Fantasy ou guerreiros que já se foram mas sua determinação para lutar é tão grande que sua essência perdura. Eles claramente são resquícios do antigo sistema de gacha do jogo, mas foram muito bem adaptados à proposta do jogo e adicionam bastante em estratégia.
Assim como os personagens, as Visions também tem os papéis como Commando ou Medic e permitem acessar habilidades específicas que podem ser ensinadas aos personagens, ajudando-os a ser mais efetivos em suas funções ou dando a possibilidade de abrir o seu leque de atuação. Por exemplo, você pode dar a Rain – que é um Sentinel, uma Vision que também é desta classe para ter uma grande afinidade entre suas habilidades ou dar a ele uma Vision do tipo Commando para aumentar ainda mais seu potencial ofensivo. O sistema de aprender habilidades lembra jogos como Final Fantasy IX ou mesmo o mais recente Final Fantasy VII Remake onde você deixava determinadas armas equipadas para aprender habilidades que depois viraram do personagem para usar livremente.

Essa progressão ajuda a dar propósito às recompensas encontradas durante a exploração. Conseguir uma nova Vision ou aprimorar uma habilidade não é apenas uma mudança nos números: pode representar uma nova maneira de enfrentar os inimigos.
Os Espers, os clássicos summons da série também marcam presença mas são um dos elementos que gostaríamos de ver melhor aproveitados. Eles permanecem em campo por três turnos, oferecendo um recurso adicional durante as batalhas. A limitação é que apenas Fina pode convocá-los, o que restringe um pouco a liberdade de experimentar esse sistema e te força a mantê-la na batalha se quiser utilizar este recurso.
Ainda assim, a combinação de funções, equipamentos, Visions e invocações oferece alternativas suficientes para que o jogador encontre maneiras diferentes de montar sua equipe.
Uma apresentação que combina com a proposta
A direção de arte e o visual de Final Fantasy Resonance ajudam a reforçar sua identidade de RPG tradicional. Quando a Square Enix criou o “estilo 2D-HD” este era justamente o objetivo e a cada novo jogo parece que eles refinam ainda mais o estilo, sendo Final Fantasy Resonance o ápice até o momento, adicionando o que eles chamam de “câmeras cinematográficas” ao jogo.
A apresentação escolhida conversa bem com a proposta de recuperar elementos da fase clássica de Final Fantasy porém trazendo um ar de modernidade. É o primeiro jogo de Final Fantasy deste estilo que foi difundido por outros jogos como Octopath Traveler e os recentes remakes de Dragon Quest mas que cai como uma luva para Final Fantasy.
A trilha sonora também merece atenção nessa construção. Em um RPG que depende tanto da exploração e da convivência com seus personagens, a música tem um papel importante em sustentar a atmosfera da aventura e a trilha sonora de Resonance não decepciona. Ela conta com mais de 120 faixas, sendo trinta inéditas para Resonance e as demais importadas de Final Fantasy Brave Exvius, que sempre foi elogiado neste quesito.
A falta de português brasileiro faz diferença
Se há um ponto em que Final Fantasy Resonance deixa a desejar, é na ausência de localização para português brasileiro.
Em um RPG com tantas conversas, missões secundárias, descrições de habilidades, equipamentos e sistemas de progressão, a compreensão dos textos é parte fundamental da experiência. Não se trata apenas de acompanhar a história principal: boa parte do encanto está justamente em conversar com NPCs, descobrir detalhes do mundo e entender o funcionamento das mecânicas.
Sem uma tradução para o nosso idioma, parte do público brasileiro pode acabar encontrando uma barreira desnecessária para aproveitar tudo o que o jogo oferece. Isso pesa ainda mais em uma aventura que incentiva a exploração e recompensa quem dedica tempo às atividades opcionais.
É uma pena, porque Resonance tem qualidades que poderiam conquistar um público ainda maior por aqui. A localização em português brasileiro ajudaria a aproximar os jogadores de sua narrativa e tornaria seus sistemas mais acessíveis, especialmente para quem não tem familiaridade com outros idiomas.
Vale a pena jogar Final Fantasy Resonance?
Final Fantasy Resonance conquista principalmente por entender o que torna os primeiros jogos da franquia tão especiais. A exploração, as conversas com NPCs, as missões secundárias e a jornada dos personagens dão à aventura um sabor de RPG clássico, enquanto o sistema de combate incorpora ideias modernas, como o Stagger inspirado em Final Fantasy XIII.
Nem todas as atividades opcionais têm a mesma profundidade, e há sistemas que poderiam ser mais bem aproveitados, como os Espers. Ainda assim, a quantidade de conteúdo, as possibilidades de personalização e a combinação entre tradição e modernidade fazem a experiência valer a pena.

A ausência de localização em português brasileiro é seu principal ponto fraco e impede que a experiência seja tão acessível quanto poderia. Fora isso, Final Fantasy Resonance é uma boa pedida para quem sente falta da estrutura dos RPGs clássicos da série, mas não abre mão de sistemas de combate mais elaborados.
Mais do que olhar para o passado, o jogo mostra que a fórmula tradicional de Final Fantasy ainda tem espaço para evoluir — e que uma aventura por turnos pode ser tão envolvente quando combina exploração, estratégia e personagens que dão vontade de acompanhar até o fim.
Caso queira assistir a nossa análise em vídeo, confira o vídeo no canal da Moogle’s Cave:

Pai do Klaus e da Chloe, Produtor Audiovisual, Designer e Fotógrafo nas horas vagas. • ele/dele – Cobrindo notícias de Final Fantasy desde a época que a internet era tudo mato.












