Imagine estar em casa e, de repente, receber um convite para o coquetel de abertura da exposição de Yoshitaka Amano. Incrível, né? Agora imagine se ainda te confirmassem que o próprio mestre estaria presente. Essa foi a motivação para encarar uma viagem de mais de sete horas de ônibus, bate e volta, até o Rio de Janeiro com 39,3 °C de febre.
Como noticiamos anteriormente, a exposição Yoshitaka Amano: Além da Fantasia finalmente chegou ao Rio de Janeiro após passagens por São Paulo e Belo Horizonte. Com curadoria do brasileiro Antônio Curti, a mostra fica em cartaz entre os dias 22 de abril e 22 de junho, ocupando todo o segundo andar do Centro Cultural Banco do Brasil com salas temáticas, incluindo uma sala imersiva que permite ao visitante literalmente “entrar” na obra de Yoshitaka Amano.
Bom, pulando toda a parte da viagem de ônibus entre São Paulo e Rio que não tem nada de interessante para vocês, vamos direto ao Centro Cultural Banco do Brasil. Para quem não é carioca, vale uma breve explicação: o CCBB ocupa um prédio histórico situado no centro do Rio de Janeiro, inaugurado em 1906 e que abrigou a sede do Banco do Brasil desde a década de 1920. Ou seja, estamos falando de um edifício com mais de 120 anos de história, cenário perfeito para receber aquela que é a maior exposição de Yoshitaka Amano já realizada no mundo. Convenhamos, combina muito bem.
Depois de atravessar o elegante saguão com suas largas colunas e pisos de mármore, fomos recepcionados pela equipe do CCBB, pelo curador Antônio Curti e pelo próprio Yoshitaka Amano para uma visita guiada pela exposição. O percurso passava por cada uma das salas enquanto a equipe explicava a proposta e a concepção de cada núcleo da mostra. Logo na antessala já encontramos uma pequena seleção de obras acompanhada de uma apresentação sobre a trajetória do artista.

A primeira grande seção não poderia ser outra senão a dedicada à série Final Fantasy, organizada de forma cronológica, reunindo obras desde o primeiro jogo até Final Fantasy XVI. Aqui vale uma observação: a quantidade de trabalhos expostos é muito superior à da exposição inaugural realizada no Farol Santander, em São Paulo. Enquanto aquela contava com pouco mais de 80 obras, esta nova versão reúne impressionantes 218 peças, mais do que o dobro.
Não há como descrever a sensação de caminhar diante daquelas pinturas originais de Yoshitaka Amano. Por mais que estejamos acostumados a vê-las em livros ou na tela do computador, a experiência presencial é completamente diferente. Especialmente nas obras que utilizam tintas metálicas, folhas douradas ou acabamentos especiais, é possível observar detalhes, relevos e texturas que simplesmente desaparecem nas reproduções digitais.


A sala seguinte é dedicada à coleção Candy Girl, uma fase em que Amano flerta com experimentações e a pop art. O contraste com o restante da exposição é imediato: cores vibrantes, suportes metálicos, tinta acrílica, glitter e até tinta automotiva compõem obras cheias de personalidade. As personagens exalam carisma e remetem a grandes ícones da cultura pop, como Betty Boop e Hello Kitty. Ainda nesta sala há também um espaço dedicado a Vampire Hunter D, uma das obras de dark fantasy mais influentes do Japão e que ganhou uma identidade visual inesquecível graças aos traços de Amano.

Depois seguimos para uma ampla sala dedicada às colaborações do artista. Aqui tem de tudo um pouco: trabalhos para Marvel e DC, cartas de Magic: The Gathering, capas da Vogue e até ilustrações produzidas para filmes como o vencedor do Oscar A Forma da Água.
A última sala é dedicada ao núcleo Deva Loka, expressão em sânscrito que significa “mundo dos deuses”. O espaço é dominado por obras monumentais e, diante do gigantesco painel que dá nome à coleção, é impossível não sentir que estamos observando uma verdadeira celebração da carreira de Amano.
Segundo o texto curatorial da própria exposição, Deva Loka representa o “cosmos de Yoshitaka Amano”. E essa definição faz todo sentido. Ali estão reunidos dragões, monstros, cavaleiros, donzelas e composições que facilmente poderiam fazer parte de um novo Final Fantasy, mas que, ao mesmo tempo, sintetizam décadas da produção artística do mestre.

É nessa mesma seção que está localizada a experiência imersiva desenvolvida em parceria com a AYA Studio. Você entra em uma sala cercada por projetores e, por alguns minutos, tem a sensação de caminhar dentro de uma pintura animada de Yoshitaka Amano. Estar ali, completamente envolvido por suas cores e personagens em uma projeção de 360 graus, é uma experiência difícil de colocar em palavras.
É aqui que termina o percurso da exposição, mas não as surpresas daquela noite.
Depois da visita guiada, fomos convidados a acompanhar a cerimônia oficial de abertura. Apesar do caráter mais institucional do evento, o momento acabou revelando detalhes bastante interessantes sobre a concepção da mostra e contou, é claro, com a presença do próprio Yoshitaka Amano.
A abertura reuniu representantes do Centro Cultural Banco do Brasil, da BB Asset e do Consulado-Geral do Japão no Rio de Janeiro. Em seus discursos, os organizadores destacaram a importância de trazer ao Brasil uma exposição dessa magnitude e ressaltaram como a obra de Amano ultrapassa o universo dos museus, alcançando milhões de pessoas por meio de videogames, animações e ilustrações. Final Fantasy, naturalmente, foi citado como uma das maiores portas de entrada para que o público conhecesse o trabalho do artista.

O ponto alto da cerimônia, porém, foi a fala do curador Antônio Curti. Fã declarado de Amano desde a infância, Curti contou que Final Fantasy IX é seu jogo favorito de todos os tempos e definiu a exposição como “um presente para a cidade” e também “um presente de fã para fãs”. Segundo ele, a proposta de Além da Fantasia é justamente mostrar um Yoshitaka Amano muito maior do que aquele conhecido apenas por Final Fantasy, percorrendo toda a sua trajetória artística — das animações produzidas na Tatsunoko às ilustrações para Vampire Hunter D, passando por moda, card games, pinturas autorais e inúmeras colaborações internacionais.
Curti também revelou que o projeto começou anos atrás, quando enviou um e-mail à equipe de Amano em 2022. Aquele primeiro contato acabou se transformando na maior exposição já dedicada ao artista, reunindo 218 obras e uma experiência imersiva desenvolvida especialmente para esta edição. Ver uma trabalho tão incrível ser feito por um brasileiro nos encheu de orgulho.

Quando finalmente chegou sua vez de falar, Yoshitaka Amano fez um breve agradecimento ao público brasileiro e ao próprio Antônio Curti pelo empenho em concretizar a exposição. Visivelmente emocionado com a recepção, o artista disse estar muito feliz por poder apresentar seu trabalho ao público do Rio de Janeiro.
Mas a noite ainda reservava uma última surpresa.
Ao final da cerimônia, Yoshitaka Amano acompanhado de seu filho, Yumihiko Amano, realizaram pinturas ao vivo diante dos convidados. As obras foram criadas especialmente para a abertura da exposição e permanecerão em exibição na rotunda do CCBB durante a temporada carioca, encerrando a noite da forma mais simbólica possível: com o mestre fazendo aquilo que o tornou uma das maiores referências da arte japonesa contemporânea.
Após a conclusão da cerimônia, fomos convidados para um coquetel delicioso e também tivemos a oportunidade de participar de um rápido meet& greet com Amano, que distribuiu autógrafos e posou para fotos com os fãs. Uma noite inesquecível, a felicidade era tanta que só me recordei da febre quando já estava à caminho de São Paulo novamente.



Pai do Klaus e da Chloe, Produtor Audiovisual, Designer e Fotógrafo nas horas vagas. • ele/dele – Cobrindo notícias de Final Fantasy desde a época que a internet era tudo mato.



















