"On a Way
to a Smile - Barret"
Vários meses haviam se passado desde aquele dia… O dia destinado.
Depois de ajudar Tifa e Cloud a construírem seu bar, Barret deixou Marlene,
sua filha adotiva confiada a ele por seu grande amigo Dyne, com os dois e partiu
em uma viagem. Uma viagem para se redimir dos pecados de seu passado. Antes de
partir, trocou algumas palavras com Tifa, que se sentia igualmente culpada.
“Não viva apenas tirando algo dos outros. Tente provar que você
pode doar também.”
Barret pensava que fazendo isto, ela enfim alcançaria a redenção.
Porém, essas palavras não serviam de consolo para ele mesmo, e Barret
continuava inseguro do que teria de fazer. Estar com Marlene lhe traria paz de
espírito, mas por outro lado, ele se sentiria culpado por viver dia após
dia sem fazer algo de concreto. Ele sabia que tinha de partir, ainda que não
soubesse porquê. Colocar distância entre ele mesmo e o que servia
de apoio ao seu coração, isso o levaria a respostas verdadeiras.
Isto era uma fuga para um reencontro consigo mesmo.
Durante seis meses, ele vagou pelo mundo. Fora o problema com o Geostigma, a vida
fora de Midgar estava aparentemente normal. A única diferença era
que agora nada usava Mako, não havia um só reator funcionando. Há
algum tempo, isto teria sido considerado uma vitória para Barret e o movimento
anti-Shin-ra (Avalanche), porém o sentimento de estar perdido superava
qualquer sensação de satisfação. Não existia
lugar para um homem com uma metralhadora implantada em seu braço direito,
a não ser em meio a batalhas e caos.
“Deixarei tudo de lado, e simplesmente não pagarei por meus pecados?”
Pensar nisso o fazia sentir ainda mais pavor. Algumas vezes ele adentrava o bosque
em busca de lutas, vencendo alguns monstros que o atacavam, mas essas batalhas
fúteis só lhe faziam sentir mais asco de si mesmo.
“A única coisa que estou matando é o tédio.”
E ele sempre acabava deixando escapar um grito de raiva.
“Raaaaaaahhhh!!!”
Aconteceu enquanto ele andava
entre a multidão em Junon. Alguma coisa colidiu contra o seu braço-arma,
e quando ele olhou para baixo, encontrou um garoto chorando, com sangue escorrendo
de sua testa. Quando Barret já ia fazer algo a respeito da ferida, uma
mulher, certamente a mãe do menino, chegou correndo e disse:
“Por favor! Perdoe o meu filho! Eu imploro! Faço qualquer coisa!”
Os olhos da mulher fitavam fixamente a metralhadora que Barret tinha implantada
em seu braço direito.
“Mesmo em tempos de paz, eu continuo sendo o mesmo monstro.”, pensou.
Os tempos estavam mudando. Ele tinha de pensar em uma nova maneira de viver
nesses novos tempos. Não sabia exatamente como poderia fazê-lo,
mas sabia que devia mudar a si mesmo primeiro.
Barret foi visitar o velho
Sakaki, um artesão que havia criado próteses para ele antes. O
primeiro modelo era simplório, tendo um gancho inserido no final. Barret
estava insatisfeito. Queria algo mais. Para cavar a terra, o ancião poderia
construir um braço com uma pá; para cortar árvores, um
braço com uma serra poderia servir perfeitamente. Mas nada disso deixava
Barret satisfeito por completo.
Um dia, o ancião disse isso a Barret, em um tom sério:
“Sua cabeça só pensa na vingança contra a Shin-Ra.
Jamais ficará satisfeito com o que quer que seja que tenha em seu braço.
Tome isto e não volte mais!”
O que o ancião havia lhe dado era um adaptador que permitia colocar acomplementos
ao seu braço. Com ele, Barret poderia colocar várias próteses
e armas diferentes no braço direito.
“O que vai colocar aí é problema seu, mas aconselho que
pense bem antes de fazê-lo.”
Ao invés de seguir o conselho do ancião, Barret não pensou
muito nisso. Durante os dias seguintes, a única coisa que fez foi tentar
instalar todo tipo de arma que pudesse carregar e experimentar seu poder destrutivo.
Durante alguns anos, as únicas coisas que Barret levaria em seu braço
seriam armas.
Quando Barret voltou ao
ateliê do ancião, pediu que lhe fizesse um novo braço. Um
que tivesse uma textura mais suave e com uma mão na extremidade. Um que
ninguém temeria, um que lhe permitiria levar uma vida normal. O ancião
apenas deu um suspiro e olhou firmemente para Barret.
“Não é só para parar de lutar. Não quero que
as pessoas tenham medo de mim, nunca mais.”
“Então... Quem você quer ser realmente?”
“Como eu dizia...” – Barret começou a responder, mas
buscando a resposta em seu interior, chegou à conclusão de que
ela não existia. – “O que eu vou fazer agora que todos no
mundo estão tentando aprender a sorrir de novo? Não há
lugar para mim nesse mundo.”
“Oras! Como se eu soubesse!”
“Vou precisar de uma
semana. O que me diz?”
“Concordo. Enquanto você faz isso, eu...”
“Se não tiver nada em mente...” – interrompeu o ancião
– “Porque não ajuda o meu sobrinho com seu trabalho? E em
troca... Hmm...”
“Não se preocupe. Não preciso de uma recompensa.”
“Tudo bem, mas pensarei em algo assim mesmo.”
No dia seguinte, Barret
partiu num caminhão. O sobrinho do velho Sakaki ia dirigindo, e Barret
percebeu que esse caminhão era do mesmo tipo do que o que o levava a
todos os lugares quando pequeno. Seu motor funcionava por meio do vapor produzido
a partir do aquecimento da água quando esta entrava em contato com o
carvão em brasa da caldeira.
Eram necessários quatro homens trabalhando juntos para fazê-lo
funcionar: um motorista, por motivos óbvios; um engenheiro, vigiando
o rendimento do motor; e mais dois homens para encher a caldeira de carvão.
Na parte de trás do enorme caminhão, ficava o compartimento de
carga, o qual podia levar cerca de dez pessoas.
O carvão ocupava o espaço de cinco homens, e Barret valia por
duas pessoas no espaço restante.
Barret estava deitado de barriga para cima, observando o céu.
“Puxa, isso está muito devagar.”, pensou.
Não era culpa de ninguém. Os grandes caminhões a vapor
sempre andavam a baixas velocidades como este. Os homens da caldeira trabalhavam
duro, suando até a última gota. Tudo estava funcionando perfeitamente.
Um dos homens da caldeira, um senhor de meia idade, se aproximou de onde estava
Barret para descansar.
“Sinto muito incomodá-lo enquanto você está de mau
humor, mas preciso me sentar.”
“Não estou de mau humor, então não há porque
se desculpar.”
“Está com tanto mau humor que a raiva lhe sai pela pele.”
Barret se sentou e olhou enfurecido para o homem:
“Você não tem mais nada para fazer?”
“Viu só? Tenho razão ou não?”
Os dois se calaram por um momento. Finalmente o homem de meia idade abriu a
boca de novo.
“Você pretende ser um guarda-costas para sempre?”
“Só estou fazendo um favor ao velho. Não sei o que farei
depois.”
“Não seria interessante continuar assim?”
“Ser guarda-costas? Ninguém quer ficar longe disso mais do que
eu.”
“Eu não imaginava.” – o homem permaneceu em silêncio.
Barret esperou que continuasse.
“O que esse idiota está achando que eu sou?”, pensou.
“Hei, diga o que quer dizer, homem.” – Barret disse, por fim.
– “Talvez, esse senhor possa me dar uma pista sobre o que fazer
com a minha vida.”
“Que tipo de pessoa eu pareço ser para o senhor?” –
Barret insistiu mais uma vez.
“O tipo que, ao invés de simplesmente matar os monstros que te
cercam, vai também às tocas dos mesmos para exterminá-los
por completo.”
“Quem sabe? Pode ser que eu faça isso.”
“Mesmo se não souber onde essas tocas ficam.” – disse
o homem com um sorriso.
“Isso me faz parecer um idiota.”
“O que você faz não é fácil. Deveria estar
orgulhoso, não?”
Barret olhou nos olhos do homem e riu: “Heh, heh, heh...”
O homem lhe devolveu um olhar misterioso.
“Posso lhe pedir um conselho?”
“Depende do conselho.”
“Quero pagar por meus pecados. É por isso que estou viajando. Mas
não importa o quanto eu vague, não consigo imaginar uma forma
de fazê-lo. Com certeza eu sou o homem de quem você falou. O que
você acha que alguém como eu deve fazer para compensar por seus
pecados?”
“Eu diria que depende dos pecados.”
“Muita gente morreu... Por minha culpa.”
Barret se lembrou de quando atacou o Reator Mako nº1 com seus companheiros
da Avalanche. O dano foi muito maior do que o esperado. A cidade entrou em pânico.
Depois, seus próprios amigos acabaram morrendo. Assim como os cidadãos
que ele nem conhecia.
O homem da caldeira viu que Barret havia se calado e disse:
“Você só precisa permanecer de pé e viver, é
só isso. Continue em busca do que você acha que será necessário
para se redimir.”
“Tinha medo que você dissesse isso.”
“Por exemplo, digamos que você não saiba onde fica a toca
dos monstros. Ora, saia e procure por ela. Pode ser que algum dia você
dê de cara com… Ah, olha ali!”
O homem apontou para a parte de trás do caminhão. Um monstro pequeno,
porém ameaçador, os estava seguindo. Barret dirigiu a extremidade
de seu braço direito em direção ao monstro e abriu fogo,
sem se preocupar um só momento em mirar. O corpo da criatura caiu despedaçado
pelas inúmeras balas que o atingiram.
“Péssimo dia para ser um monstro.”, comentou Barret.
Quando Barret se virou para dizer ao homem da caldeira que não se preocupasse,
se deu conta de que ele não tirava os olhos de seu braço direito.
Era o mesmo olhar da mulher de Junon.
“Pode ser que eu seja o monstro... Sabe, senhor, a toca dos monstros deve
estar em algum lugar dentro de mim.”
O homem da caldeira não foi suficientemente amável para responder.
O destino do caminhão
era um pequeno vilarejo que sobrevivia da agricultura de batatas. Um após
o outro, os homens traziam sacos cheios de batatas e os colocavam na área
de carga do caminhão, na qual ainda restava metade do carvão que
havia quando partiram. Enquanto ajudava com o trabalho, Barret se perguntava:
“Quando vendem essas batatas na cidade, quanto será que ganham
por elas? Sem dúvida, os salários das pessoas do caminhão
devem estar incluídos no preço que os aldeões pedem pelas
batatas.” O preço da comida era um problema em Midgar. Demasiadamente
alto, mesmo para uma época de crise. Porém, vendo tantas pessoas
trabalharem tão duro, Barret começou a se dar conta de que não
havia outro jeito. Quando o suprimento de Mako se esgotou, a maioria das máquinas
usadas nas colheitas se tornou inútil. E colher batatas sem elas era
muito mais trabalhoso.
Barret logo estava perdido em seus pensamentos. Se eles não podem mais
usar as máquinas, não há outra escolha a não ser
usar o próprio corpo. Bem, temos muita gente. Em Midgar, há todo
tipo de gente sem trabalho, lutando sozinha para conseguir comida, não
é verdade? Sim, essas pessoas podem comer aquilo que elas mesmas plantaram,
e pelo menos fome elas não mais passariam. Claro, eles teriam de plantar
algumas sementes, cultivar as plantas e cuidar delas. Também seria interessante
se criassem gado.
“Ah, bingo!”, pensou.
Se todos nos conscientizarmos sobre isso, chegará um dia em que poderemos
viver sem miséria, pelo menos na questão da comida. Quando precisarmos
de máquinas, podemos usar carvão, como os caminhões. Tudo
o que temos de fazer de agora em diante é fazer as coisas como se fazia
antes do Mako. Pode ser que sejam tempos difíceis. Pode ser que as coisas
caminhem mais lentamente. Para as pessoas impacientes como Barret, pode ser
que seja ainda pior, pode ser insuportável. Mas é assim que tem
que ser. É assim que os tempos caminham.
Barret sorriu, feliz por ter chegado tão depressa a uma idéia
própria. Então teve que considerar o que podia fazer. Primeiro,
poderia incorporar uma enxada ao seu braço direito e começar a
arar o campo. Daria o melhor de seu poderoso corpo e faria o trabalho de cinco
homens. Mas espere, os novos tempos clamam por um novo líder. “Será
esse o meu papel?”, os pensamentos de Barret se aceleravam. Se imaginava
dando ordens, e seus amigos se apressando para cumpri-las.
“Vamos lá, Barret!” – diria Jessie no início
do dia, com Wedge e Biggs ao seu lado. Mas então lembranças de
seus dias como líder da Avalanche vieram à sua mente, e a momentânea
visão de um futuro brilhante se transformou num profundo remorso.
“Graaaaaahhh!!!” – gritou Barret.
“Merda, lá vou eu de novo...” – pensou, e deu uma olhada
ao redor. Mas ninguém estava olhando. Todas as pessoas estavam reunidas
em frente a uma casa, onde o sobrinho do velho Sakaki conversava com um homem
de meia idade que devia ser do vilarejo. Barret se aproximou para se inteirar
do assunto.
“Por mim, não há problema algum em levar sua filha a Midgar.
Entretanto, ela me parece terrivelmente debilitada… Pode ser que não
cheguemos a tempo...”
“Mas...” – o homem de meia idade carregava em seus braços
uma menina pequena, que estava desacordada, e aparentemente sofrendo. Era uma
linda garotinha, mas de um de seus braços goteava um líquido negro,
a horrível Geostigma, e em um estado muito grave. Barret havia dado de
cara com o tipo de situação que mais odiava: “Agora, agora
mesmo, acontece uma desgraça bem na sua frente e você não
é capaz de fazer merda nenhuma.”
Barret sabia que mesmo que ela fosse a Midgar, não poderia encontrar
um tratamento decente. Talvez fosse melhor dizer isso a ela. “Você
não deveria permanecer aqui no vilarejo, em paz, nos seus últimos
dias?”, ele pensava em dizer. Mas se dissesse isso, ele acabaria com todas
as esperanças do pai e da filha. “Isso é tudo o que posso
fazer? Me calar e deixar que as coisas sigam seu curso?” – Barret
queria gritar.
“Ir a Midgar não será uma perda de tempo?” –
perguntou uma voz. Barret olhou para o lado e viu o rosto familiar do homem
da caldeira, com os olhos franzidos.
“Provavelmente.” – respondeu Barret.
“Então é melhor que eles saibam.” – disse o
homem, e começou a caminhar em direção ao homem e sua filha.
“Espere!” – disse Barret.
Mas o homem não lhe deu ouvidos. Barret foi atrás dele, determinado
a pará-lo antes que suas palavras levassem ao desespero o homem e sua
filha. O homem parou, se virou e disse a Barret:
“Você acha que devemos deixá-la ir até Midgar, para
assim deixa-lá feliz, é isso? Mesmo que isso não sirva
para nada?”
“... Sim.”
“Bom, estaria tudo bem se fôssemos numa nave voadora, mas tudo que
nós temos é um caminhão. O compartimento de carga fica
muito quente e apertado. É uma viagem dura. Você sabe. O que fará
se ela morrer antes mesmo de chegar?”
“Ainda assim, vamos levá-la, por favor...”
“Não se preocupe. Serei eu quem contará a eles. Provavelmente
acabarei com suas esperanças. Porém, será melhor para a
menina estar em casa, com sua família, no final...”
Barret não sabia se era ele ou homem da caldeira quem estava com a razão.
Precisava pensar bem. Sua mente voltou a dar voltas. Novamente queria gritar,
porém se conteve.
Depois de um breve momento,
o homem da caldeira voltou, sem nem ter entrado na conversa.
“Acaba de exalar seu último suspiro.”
“O quê!?”
“Você... Quer saber quais foram suas últimas palavras?”
“Não.” – pensou, mas o homem da caldeira continuou.
“Por favor, me leve até Midgar.”
O homem da caldeira apertou seus punhos com raiva.
“Suponho que eu estava enganado.”
“Raaaaaaaahhh!!!” – gritou Barret – “Está
tudo errado!”
Cheio de raiva, mirou seu braço em direção ao céu
e abriu fogo com sua arma.
E o som dos tiros ecoou por todo o tranqüilo vilarejo.
Barret permaneceu no vilarejo
para presenciar o enterro da menina. Perguntou ao desolado pai da criança
se havia algo que ele poderia ter feito.
“Se pelo menos nós tivéssemos uma nave voadora...”
– murmurou o homem – “Eu já fui um tripulante da Gelnika.
Se tivesse continuado voando, poderia ser que a minha pequena não tivesse
morrido. Daqui a Midgar teria sido um vôo tão curto...”
“Escute, senhor.” – Barret sabia que tinha de dizer algo –
“Sei como se sente, mas não há como curar a estigma, nem
mesmo em Midgar.”
Se pelo menos isso, se pelo menos aquilo... Caso esse mundo dos “se”
se tornasse realidade, o amanhã seria ainda mais incerto. E era por isso
que essas conjecturas de nada adiantavam. Barret tinha experiência. E
lamentavelmente, ao usá-la, só piorou as coisas. Enquanto Barret
procurava as palavras apropriadas, o homem começou a falar:
“Não precisava ser Midgar. Poderia ser qualquer lugar. No momento
em que soubéssemos que ali era possível curar a estigma, poderíamos
nos pôr a caminho com o enfermo. Se tivéssemos uma nave voadora,
estaríamos preparados.”
“Preparados?”
“Minha filha não era a única sofrendo com Geostigma.”
Ainda que tivesse acabado de perder sua filha, os olhos do homem se dirigiam
para o que estava por vir.
O futuro que Barret havia
criado em sua mente enquanto empacotava as batatas no caminhão havia
desmoronado completamente. “Porque não podemos nos locomover também
com naves voadoras, além de usarmos máquinas de terra? Em Midgar,
já usamos veículos para locomoção e trabalho. Porque
não uma nave voadora, então? Ainda que não usemos Mako.
Os tempos mudaram, e eu vou fazer o mesmo.”
Não muito longe da
Cidade Rocket, ao leste, se estende uma região desértica onde
não cresce uma única planta. Ali há uma torre de perfuração
de petróleo de cerca de cinqüenta metros de altura, e uma pequena
e velha refinaria construída à sua volta.
Muitos homens e mulheres estavam reunidos aos pés da enferrujada torre
de perfuração. Uma delas era Shera, vestida com um jaleco branco
de laboratório.
O engenheiro que estava ao seu lado falou:
“Diminuiu 70% em comparação com o mês passado. São
mesmo más notícias, se quer saber o que eu acho. Como têm
ido as coisas segundo as suas conclusões?”
“Temos progredido bastante. Não posso dizer que se compare com
o Mako, mas temos organizado o processo de refinação de várias
maneiras.”
“Sei que podemos conseguir. Mas agora precisamos é do produto para
refinar, não é mesmo?” – o engenheiro dirigiu seu
olhar para o sol. Shera não pôde evitar de seguir seu olhar. Ela
pensava em quanto ela queria que a gigantesca broca de aço ao seu lado
conseguisse extrair o petróleo restante do solo.
“Só um pouco mais.” – Shera juntou as mãos em
oração, mas a mancha em seu antebraço esquerdo não
era petróleo. Era a estigma.
A Cidade Rocket uma vez
foi a base de operações para o programa espacial da Companhia
Shin-Ra. Os engenheiros acabaram criando laços com o lugar, transformando
a pequena vila numa cidade barulhenta.
Quando Barret chegou à cidade, viu crianças brincando na rua.
Algumas delas tinham a mesma idade de Marlene. Seus olhos se iluminaram de imediato.
“Do que estão brincando, crianças?” – perguntou.
As crianças olharam para cima, tentando identificar aquilo que estavam
vendo. – “Que tal se deixarem um velho brincar com vocês?”
As crianças foram embora correndo. Barret soltou um suspiro e olhou para
sua mão direita.
“Só terei que agüentar isso até a minha nova mão
ficar pronta.”
“Você dá medo de qualquer jeito.” – disse uma
voz que veio de trás.
“Me desculpe, mas, você é...” – ele não
conseguia identificar a pessoa.
“Duvido que se lembre de mim. Sou da tripulação da Highwind.”
– Highwind era o nome da nave voadora que Barret e os outros usaram durante
sua viagem para salvar o planeta.
“Oh, sim. Obrigado por ter nos ajudado então.”
“Não foi nada.”
Barret não demorou para pedir ao homem que o levasse até Cid.
Enquanto caminhavam, ele ouviu algumas batidas metálicas ao longe.
“O horário de almoço acabou, sabe? É melhor nos apressarmos.”
“O que está acontecendo?”
“Você não consegue imaginar? Aqui é onde os homens
de Cid trabalham, afinal.”
“Uma nave voadora?”
“Veja você mesmo!”
Passada a grande aglomeração de casas, se abria uma grande área,
e Barret pôde ver uma enorme nave voadora. Sim, uma nave voadora, assim
como a velha Highwind, estava em construção.
“Puxa! É uma visão e tanto.”
A nave estava sendo apoiada num primitivo andaime. Na parte mais alta do andaime,
o qual não parecia digno de receber aplausos por suas medidas de segurança,
trabalhavam cerca de 20 pessoas da cidade. Tudo o que Barret podia ouvir era
o som estridente da placa metálica sendo martelada em diferentes lugares.
A nave parecia qualquer coisa, menos terminada.
“Ei, já está terminada!”
“Sim, mas só o esqueleto. Ainda não há nada dentro.”
– o homem acenou para o espaço vazio onde deveria estar o motor
– “É porque não podemos mais usar Mako. O motor nos
levará algum tempo.”
O solo começou a tremer, e de alguma parte veio o som de uma explosão.
Barret se assustou e caiu no chão.
“O capitão está ali.” – riu o homem ao seu lado,
indicando um galpão atrás da nave.
Dentro do galpão havia uma única coisa, um motor, que parecia
se encaixar na nave voadora. Ele estava sobre uma enorme mesa de trabalho.
Muitos homens o observavam de uma distância segura, e todos eles vestiam
máscaras. Novamente, o som de uma explosão. Barret estremeceu.
Um dos homens arrancou sua máscara e correu em direção
à máquina.
“Filho de uma...!”
Cid se inclinou para examinar a máquina, rangendo os dentes como se quisesse
despedaçar um pedaço de carne
“Maldito pedaço de merda! Vou quebrá-lo em migalhas!”
Barret sorriu largamente. Ele não ouvia esse linguajar grosseiro há
anos. E ele não tinha mudado nada. Cid se dirigiu tranqüilamente
em direção a Barret, proferindo palavrões a cada passo.
Barret recebeu Cid com uma gargalhada.
“Continue falando desse jeito e Deus vai te castigar!”
“Deus? Então diga a ele que se apresse e venha até aqui.”
– disse rapidamente Cid, sem perder um segundo – “Quero trocar
umas palavras com ele.”
Os dois se puseram rapidamente
em dia sobre os acontecimentos recentes.
“Deixei Marlene com Tifa. Elas se dão muito bem, então achei
melhor que ela não viesse comigo.”
“Que bondoso de sua parte. O mundo inteiro deve estar aplaudindo. E então,
Cloud está com Tifa?”
“Sim. Tifa abriu um bar, como nos velhos tempos. Cloud a estava ajudando,
mas parece que agora ele tem um negócio próprio que o mantém
ocupado. Um serviço de entregas.”
“Cloud? Administrando um negócio?”
“Pode apostar que Tifa o está obrigando a andar na linha.”
“Com certeza. Afinal, ela é a mulher mais sensata que eu conheço.”
“E como está Shera?”
“Bem, como sempre.” – respondeu evasivamente Cid.
Depois disso desviou a conversa para outro lado, falando sobre como Red XIII
continuava lhe fazendo visitas curtas, como Yuffie estava ensinando o estilo
de luta Wushu às crianças de Wutai, e como Vincent estava completamente
fora de contato.
“Bom, o que você quer afinal? Sou um homem ocupado.”
“Está construindo uma nave voadora, não está?”
“Esse é o meu trabalho.”
“Eu poderia ajudar nisso?”
“Você? O que um novato como você poderia fazer?”
Normalmente Barret haveria contestado com uma resposta bruta, mas dessa vez
deixou passar, e contou a Cid o que esteve pensando.
“Se você tivesse uma nave voadora, Cid, teria um monte de vidas
em suas mãos. Por exemplo, as pessoas com Geostigma. Se encontrassem
uma cura em algum lugar, você poderia levá-las até lá
num instante. Poderia levá-las voando a qualquer lugar onde fosse possível
tratá-las. Entregar carregamentos de comida. Qualquer coisa que as pessoas
precisem para viver, entende?”
“Bem, agora você disse tudo.” – Cid aproximou seu rosto
do de Barret – “Estamos falando de usar Mako. Mako! Você tem
idéia do quanto a energia Mako faz falta para um veículo como
uma nave voadora?”
“Diabos, é claro que não. Mas escute.” – Barret
fez uma recapitulação de tudo o que esteve pensando no caminho
até ali – “Não se pode ser ambicioso. Se você
usa Mako, está sugando a vida do Planeta, é inquestionável.
Mas não estou falando de usar tanto a ponto de comercializá-la
como antes. Vamos usar só um pouco. O Planeta poderia nos perdoar se
usássemos só o necessário para prosseguir com nossas vidas.”
A reação de Cid:
“Eeeeeeeei!!! Mas o que está acontecendo com o líder da
Avalanche?”
Barret não tinha como contestar isso. Ao menos analisando seu passado,
ele teria uma resposta interior. Mas agora que era outra pessoa quem estava
perguntando, procurou as palavras adequadas. A melancolia o absorveu até
o fundo de sua alma, e ele levantou o braço direito. Estava prestes a
abrir fogo, quando se deu conta de que estava numa área coberta, e parou
em seco. Porém gritou.
“Graaaaaaaaaaaahhh!!!”
Todas as pessoas no recinto imediatamente se viraram na direção
de Barret.
“Sinto muito. Uhn, não foi nada...” – disse aos três
que estavam ao seu redor, fingindo um sorriso. Então abaixou a cabeça,
buscando as palavras para se explicar. Ao invés de palavras, imagens
de seu passado vieram à sua mente. Essa expressão tão séria
era a que costumava ver nos rostos de Biggs, Wedge e Jessie – “Vamos,
digam algo. Digam, homens, encham-me de culpa.”
Olhou para todos os lados, como se quisesse afugentar as três figuras,
e então olhou para cima. Cid o olhou diretamente.
“O que diabos está acontecendo com você?” – perguntou
Cid, surpreso.
“Cid, você tem que me dizer. Eu não sei o que fazer. Meu
passado é como um campo minado que não foi desarmado. Mas têm
que haver coisas boas nele também. Mas quais? Quais delas são
corretas? Quais são equivocadas? Quem você acha que eu devo ser
de agora em diante? Eu preciso mudar. Isso não me é permitido
por causa do meu passado? Hein? Acredita que eu devo continuar com essa arma
pregada em meu braço assustando as crianças? É assim que
vou pagar por meus pecados? Eu já não sei de mais nada. Me ajude,
Cid… O que eu devo fazer?”
E no final, Barret abriu fogo contra o teto, abrindo numerosos buracos nele.
Cid olhou para o teto e disse:
“Bem, para começar, pode arrumar isso.”
Cid passeava tranqüilamente,
supervisionando como Barret estava trabalhando cuidadosamente no conserto dos
buracos do teto. Cheio de vergonha, Barret decidiu ignorá-lo e continuar
os reparos. Cid se sentou ao seu lado.
“Está mais calmo agora?”
“Sinto muito.”
Cid balançou a cabeça para dizer “não se preocupe”.
– “Preciso de sua ajuda com uma coisa.”
Barret parou de trabalhar e olhou para Cid.
“É sobre o que disse antes, Mako. Sobre a possibilidade de colhermos
apenas um pouco do Planeta, só o que precisamos. Tivemos a mesma idéia.
A verdade é que as naves voadoras são úteis. Especialmente
quando o mundo está no meio de uma crise, tentando se recuperar. Se algum
dia me disserem que não precisam mais delas, suponho que posso encontrar
algum lugar com uma bela paisagem para aterrisar, e transformá-lo em
minha casa.”
Cid continuou falando sobre a situação atual da energia. Do jeito
que estavam as coisas, os reatores Mako de todo o mundo estavam parados. E o
motivo não era só porque as pessoas sentiam remorso por terem
usado o Mako demasiadamente, sugando a vida do Planeta. Havia também
um problema prático maior: a extração era difícil
sem a Shin-Ra, que era quem havia criado os reatores Mako. Mas qual era a verdadeira
razão de ninguém ainda ter tentado reativar os reatores Mako?
“Hoje em dia, todo mundo sabe que a energia Mako absorve o Lifestream
e o consome” – disse Cid – “E naquele dia, todos experimentaram
em primeira mão como o Lifestream pode ser terrível. Estão
assustados. Assustados demais com o Planeta. ”
Barret se lembrou da imagem do Meteoro se desintegrando bem acima de Midgar,
momentos antes de ter podido destruir a cidade. O poder do Lifestream era aterrador,
seguramente muito maior do que qualquer coisa que o homem poderia produzir.
“Ninguém quer mexer com Mako, nem com uma vara a dez metros de
distância.”
“Então você está dizendo que não há
forma de produzir energia Mako agora?” – perguntou Barret.
“Exato. Provavelmente não há como. Entretanto, ainda resta
algum Mako que nunca foi usado acumulado nos reatores de Midgar. Agora mesmo,
essas reservas de Mako fariam funcionar todos os motores de Mako do mundo. Os
líderes locais podem dividí-lo, repartindo-o de acordo com o que
acreditam ser mais necessário. Principalmente para manter funcionando
as máquinas que ajudam com a reconstrução.”
“Sim, eu sei. Estive em Midgar. Mas veja, que mal haveria em aproveitar
só um desses reatores agora e também depois? Duvido que seja tão
temível.” – Barret disse, enquanto pedia perdão a
Jessie, Wedge e Biggs.
“Não extrairá uma só gota de Mako naquele solo. O
fluxo do Lifestream mudou.”
“Você tem certeza disso?”
“Red me contou. Já que foi ele quem disse, deve ser verdade.”
Barret ficou sem palavras. Acaso este seria um aviso do Planeta de que não
deveriam usar Mako nunca mais?
“Agora, se fôssemos construir um reator Mako em algum outro lugar,
seria uma história completamente diferente. Mas primeiro temos de encontrar
o lugar, transportar todos os materiais... Não sei quando acabaríamos.
Além do mais, há o problema de como transportar todos esses materiais
em primeiro lugar.”
“Isso não é nada bom.”
“Sim. Uma vez que essas reservas de Mako se esgotem, acabou. O mundo voltará
à época do carvão. Voltaremos a ter de nos esforçarmos
nos velhos caminhões a vapor de novo. Voltaremos a viver na época
em que, no máximo, cruzaremos grandes dstâncias velozmente montando
chocobos. Não seria tão ruim, se quer saber.”
“É assim que você quer viver, como um derrotista? Está
me dizendo que devemos conduzir nossas vidas em direção ao retrocesso?
Sim, estaremos na merda por um bom tempo, eu sei. Talvez seja melhor para nós
não voltar a trilhar o mesmo caminho. Mas e daí? Por causa disso,
vamos ficar parados? Por quê não podemos buscar outro caminho?”
“Que nos levará ao petróleo.” – disse Cid com
um amplo sorriso.
“Petróleo? Aquele piche inútil?”
Para Barret, que trabalhou nas minas de carvão, mencionar o petróleo
era uma surpresa. A única coisa para a qual ele servia era para queimar
em lamparinas.
“Ele só se tornou inútil porque apareceu o Mako. A verdade
é que o petróleo ia comandar a nova era. Teríamos uma tecnologia
destinada a produzir diferentes combustíveis a partir do petróleo.
Mas uma vez que o Mako surgiu, a tecnologia se centralizou nas aplicações
dele. E o petróleo desapareceu da história.”
E Cid continuou, explicando como ele e sua equipe haviam encontrado documentos
e localizado um antigo campo de petróleo. Felizmente, não ficava
muito longe da Cidade Rocket. Ali, encontraram instalações para
perfurar o solo em busca de petróleo e refiná-lo em gasolina.
Estava tudo muito enferrujado, mas não inutilizável. Cid e seus
camaradas haviam restaurado as instalações a um estado operacional.
Mas a gasolina não produzia energia suficiente.
Eles precisavam de um combustível mais potente. Haviam colocado todos
os seus esforços em conseguir esse objetivo, e por fim a possibilidade
de conseguir combustíveis para reatores parecia clara. Paralelamente
a isso, eles estavam trabalhando em um processo para modernizar os motores,
para que funcionassem com o novo combustível. Entretanto, esse projeto
não estava avançando muito bem.
“Desde quando começaram a molengar, estúpidos?”
“Depois que aconteceu aquilo, logo depois.”
“Meu Deus! Cid, isso é incrível!”
“Como eu lhe disse, temos os documentos. Não há sinais de
uma nova tecnologia. Tudo o que temos feito é trazer de novo à
vida uma tecnologia antiga.”
“O que vocês têm feito significa o fim do carvão, não
é?” – Barret, tendo crescido numa cidade de mineradores de
carvão, tinha sentimentos confusos quanto a isso.
“Os tempos mudam. O que penso é que nós nascemos na mudança,
só isso.”
“Não posso dizer que me sinta a favor de uma parte ou de outra.”
“Então, que tal você se sentir uma pessoa afortunada? A nova
era é a nossa oportunidade de tentar fazer todo tipo de coisa.”
“Tem razão.”
“A única parte ruim é...”
“O quê?”
“Com tanta coisa para fazer, nós mesmos acabamos ficando sem tempo.
Não é uma merda?”
Cid e Barret partiram para
o leste da Cidade Rocket. Caminharam o dia todo, antes de chegar ao seu destino.
Shera veio dar-lhes as boas-vindas.
“Olá!” – exclamou Barret, que estava feliz por vê-la
novamente depois de tanto tempo. Shera parecia não ter mudado nada. Mas
Barret notou uma marca da estigma em sua mão direita. Ela provavelmente
percebeu isso, e a escondeu debaixo da manga.
“E então, você está bem?” – perguntou
Cid bruscamente – “Não se esforce demais.”
”Nós ficamos sem tempo...? Não, o ‘nós’
já não existe mais...”, pensou Barret.
Cid olhou para a torre de perfuração de petróleo. Não
mostrava sinais de funcionamento.
“Porque esse demônio não está funcionando?”
Shera rapidamente explicou a situação.
“Nós o cortamos essa manhã. Poderíamos tê-lo
forçado mais, mas a produção já havia caído
mais de 10% em comparação com quando começamos a perfurar,
e então decidimos parar a bomba de extração.”
Cid baixou o olhar e disse:
“No primeiro dia em que chegamos aqui, isto jorrava sem usar sequer uma
bomba. Ficamos todos sujos de preto com o petróleo que saía. Rachamos
de tanto rir.”
Barret deixou escapar um grande suspiro.
“O Planeta não vai dar mais nada para a gente, não é?”
“Isso não é verdade.” – disse Shera com uma
voz firme – “O Planeta tem muitas coisas boas reservadas para nós.
E eu lhes asseguro que o carvão, o petróleo e o Mako estão
entre elas. Inclusive devem existir coisas que nós nem conhecemos ainda.
Ficaremos bem, enquanto não as usemos erroneamente. Enquanto não
nos tornarmos gananciosos. Se formos persistentes, o Planeta olhará por
nós. Afinal de contas, o Lifestream que o percorre já foi uma
vez as vidas das pessoas que viviam onde nós estamos.”
Cid e Barret refletiram sobre essas palavras.
“Shera... Ela sempre se preocupará com Cid, não importa
se esteja viva ou se tenha retornado ao Planeta.” – pensou Barret
– “O mesmo vale para Cid. E para mim.”
“Shera...” – foi tudo o que Cid disse para quebrar o silêncio.
Depois de um tempo, ele voltou a abrir a boca:
“Shera, como está o combustível?”
“Bem. Parcialmente ele depende da eficácia do seu motor, mas deve
ser capaz de dar uma volta completa ao redor do Planeta. Deve ser o suficiente
para mais que uma volta regulada, eu diria. O que você acha?”
“O motor não está pronto. Nada funciona. Não tenho
sequer uma idéia em mente. Escute, Shera...”
“O quê foi?”
Cid se calou. Barret falou em seu lugar.
“Cid quer você por perto, para que o ajude com o desenvolvimento
do motor. Para que o coloque em forma, sabe? Mesmo que o combustível
esteja terminado, ainda há um monte de coisas para fazer.”
“Eu sei.” – Shera olhou para Cid – “Não
posso jogar a toalha ainda.”
Barret precisava dizer algo mais.
“E depois que terminar de construir o motor, há mais um monte de
coisas para fazer!”
Shera concordou com ele com um sorriso.
Os três observaram
a torre de perfuração em silêncio.
“Barret...” – disse Cid – “Você conhece
algum campo de petróleo?”
“Deixe comigo!” – Barret já não tinha mais nenhuma
dúvida. “Ei, Planeta. Ei, todo mundo que vive aqui. Se querem me
castigar, que o façam. Mas vou lutar com tudo o que tenho. Os únicos
que têm o direito de me castigar são os idiotas que continuam vivendo.
Vou viver, por isso teremos um amanhã.”
Quando Barret voltou ao
ateliê do velho Sakaki, este já havia construído uma nova
prótese, exatamente da maneira como Barret havia pedido. A mão
era feita de madeira, e causava uma boa sensação de tato. Não
era feita para se encaixar num adaptador, ajustando-se diretamente ao braço
de Barret. Barret olhou para a mão, depois para o ancião e disse:
“Todavia, tenho que continuar viajando. Preciso fazê-lo. Tenho que
encontrar algum lugar que produza petróleo. Pode ser que eu acabe indo
a lugares onde ninguém mais se atreveria a entrar, lugares perigosos.
Não consigo sequer imaginar os monstros que encontrarei. Por isso ainda
preciso de uma arma. E não só para me defender. Não posso
me dar ao luxo de parar de lutar. Se eu parar, então outra pessoa terá
que fazer isso em meu lugar, por isso essa é a minha causa. Não,
minha sina. Minha penitência.”
Depois de ouvir essas comoventes palavras, pouco características de Barret,
o velho Sakaki foi até a parte de trás da tenda, e voltou com
um pacote. Quando o abriu, Barret viu diante de si uma prótese com algo
de diferente. Era uma estranha mão feita de metal. Até os dedos
pareciam capazes de se mover.
“Com a prática, poderá chegar a escrever com ela. Depende
de você se isso será útil ou não.”
“Isto…”
“Pretendia dá-la como pagamento por ajudar o meu sobrinho. Mas
como parece que não vai usar, a guardarei.”
“Sinto muito. Deve ter passado por muitos problemas para fazê-la.”
“Não se preocupe. Você ainda tem muitos anos de vida pela
frente. Venha pegá-la quando tiver terminado sua missão.”
– disse o ancião – “Cuidarei para que não enferruje.”
Depois de deixar o ateliê
e caminhar um pouco, Barret pensou: deveria escrever uma carta para Marlene.
Chamá-la para vir com ele nessa nova viagem. Não. Uma vez que
tudo estivesse terminado, ele voltaria aqui e a escreveria com a nova mão
que o velho lhe fez. E levaria a carta pessoalmente para Marlene. Barret queria
gritar. Por isso, com todas as forças de seu coração, ele
o fez:
“Aí vou eu!”
Caso de Barret, fim.