Tifa se despediu do
último cliente de seu bar, Seventh Heaven, antes de voltar para dentro
para limpar o balcão. A sala estava silenciosa, com uma iluminação
mínima, mas adequada. Não havia ninguém lá além
de Tifa. Há alguns dias atrás o trabalho não parecia tão
cansativo. Ela gostava de trabalhar ao lado de sua família, esquecendo
todos os problemas, mas agora a água ficou fria, e ela não consegue
mais manter a mesa limpa. Tifa ligou todas as luzes do bar, numa tentativa de
mudar o clima. Por um breve momento, o local se iluminou um pouco, mas o suprimento
instável de energia não deixou que durasse muito. O bar estava escuro
de novo. Um sentimento de desconforto tomou conta dela. Ela imaginava se estava
sozinha ali. Não podia agüentar esse pensamento, e chamou o nome da
garota.
Em pouco tempo, passos macios eram ouvidos vindos do quarto da criança,
e Marlene apareceu.
“Shhhh!”, ela disse, colocando o dedo nos lábios. Tifa se desculpou,
mas estava aliviada.
Tifa se culpava por permitir que a criança se preocupasse.
“Hmmm... O que?”, Tifa respondeu sem sentido, tentando esconder seus
sentimentos. Marlene olhava para a loja vazia.
“Está se sentindo sozinha?”, a menina entendia a situação.
“Eu não vou a lugar nenhum.”
“Obrigada. Você deveria ir dormir também.”
“Ela é minha filha. Foi assim que a apresentei às pessoas.
Seus pais morreram há não muito tempo atrás e ela foi adotada
pelo melhor amigo do pai, Barret.”
Tifa aprendeu muito sobre Marlene desde que conheceu Barret e começou a
trabalhar com ele. Era simplesmente natural Barret ter confiado Marlene a Tifa
quando decidiu partir em uma jornada para resolver seu passado.
Tifa parou de limpar e seguiu Marlene para dentro. No quarto da criança,
havia duas camas, uma ao lado da outra. Lá, Denzel dormia bem. A cicatriz
de Geostigma na testa do jovem de apenas 8 anos era uma visão dolorosa.
Nada podia ser feito para acalmar os sintomas, o garoto sofria e suas condições
não melhoravam em nada. Denzel se mexeu um pouco quando Tifa limpou sua
testa ensopada, mas continuou dormindo. Marlene, que observava Denzel, chamou
por Tifa após se sentar em sua cama.
“Desculpe-me”, Tifa respondeu honestamente.
“Está tudo bem. Nós também somos assim.”
Tifa abaixou a cabeça, incapaz de responder. Cloud estava em algum lugar
de Midgar. No início, ela imaginava que o pior poderia ter acontecido.
Talvez ele tivesse sofrido um acidente no trabalho, ou talvez tenha sido atacado
por um monstro.
Ela logo descobriu que ele ainda estava bem. Muitas pessoas o viram. Ele apenas
foi embora de casa, só isso. Tifa tentava convencer as crianças
de que não havia problemas, mas ela mesma não estava convencida.
Em pouco tempo, as crianças perceberam que alguma coisa aconteceu.
“Eu não sei. Talvez todos os tipos de problemas tenham ocorrido entre
nós.”
Mas Tifa se lembrava do sorriso no rosto de Cloud da última vez que o viu.
Foi aquela bondade que a fez acreditar que tudo estava bem.
Num dia destinado, um meteoro
caiu do espaço. Emergindo do núcleo do Planeta, o Lifestream se
fundiu e o destruiu. Tifa e seus companheiros assistiram à cena no céu.
“Eu gostaria que tudo apenas desaparecesse. Desaparecesse do meu passado.
Do nosso passado. Talvez eu também tenha sentido o terror inevitável
que viria com o alívio do fim da batalha.”
“Eu imagino se poderia continuar vivendo como era.”
Quando alguém se fazia esse tipo de pergunta, ela diria que deve-se sempre
ir em frente não importa o que aconteça. Mas agora que quem perguntava
era ela, a resposta era incerta.
Graças ao desenvolvimento de energia Mako da Shin-ra, o mundo estava
prosperando. A luz cobria a superfície do mundo, mas ao mesmo tempo,
algo muito mais obscuro estava acontecendo. O grupo anti-Shin-ra, “Avalanche”,
surgiu para fazer o mundo descobrir que obscuridade era essa.
A energia Mako estava levando o Planeta à destruição. Apesar
das atividades de resistência da Avalanche, pouco mudou e o resultado
não parecia bom. Depois que a humanidade adquiriu os benefícios
do Mako, era difícil para ela se voltar contra ele. Num esforço
para mudar a situação, Avalanche escolheu tomar medidas extremas.
Na cidade de Midgar, onde muita quantidade de energia Mako era consumida e muitas
pessoas viviam, eles explodiram um dos reatores.
Devido a um erro de cálculo na bomba, a área que foi destruída
era maior do que o planejado. As áreas vizinhas ao reator Mako também
foram destruídas. Em resposta ao incidente, a Shin-ra começou
a agir para acabar com a Avalanche. Um setor inteiro de Midgar, onde ficava
o esconderijo da Avalanche e muitas pessoas viviam, foi completamente destruído.
Foi um ato brutal da Shin-ra para destruir o pequeno grupo rebelde Avalanche.
Ao final do incidente, Avalanche se tornou a razão de tantas vidas inocentes
terem sido perdidas.
Essa Avalanche era o grupo ao qual Tifa pertencia.
Ela acreditava que esses sacrifícios eram inevitáveis para chegar
ao objetivo. Eles sempre estavam prontos para sacrificar suas vidas também.
Mas após a catástrofe, Tifa e os outros perderam a direção
de seu propósito original. Em meio à guerra com a poderosa Shin-ra,
eles logo se encontraram enfrentando o poderoso Sephiroth. Tifa, ao lado de
seu amigo de infância, Cloud, o outro sobrevivente da Avalanche, Barret,
Aerith, que eles conheceram durante o caos, e Red XIII, partiu numa jornada.
Após mais uma série de eventos, Cid, Cait Sith, Yuffie e Vincent
também se tornaram seus companheiros.
Parecia que uma nova amizade estava florescendo, mas haveria um preço
a pagar. Aerith perdeu a vida.
Mesmo assim, a jornada ainda não estava acabada. Olhando para trás,
Tifa podia sentir que a luta estava chegando ao fim, embora eles não
soubessem se iam vencer ou perder.
“Tudo começou quando eu ainda era uma adolescente. Houve alguns
problemas no reator Mako que foi construído perto da minha cidade natal,
Nibelheim, e nossa segurança estava ameaçada.”
“Sephiroth foi despachado pela Shin-ra para resolver o problema, mas ele
matou meu pai. Eu não consegui conter o ódio que senti dele e
da Shin-ra. E então me juntei à Avalanche. Sim. Esse foi o início
do ressentimento que eu guardava dentro de mim. Os ideais que a Avalanche usava
sobre como eles eram anti-Shin-ra e anti-Mako eram justamente o que eu precisava
para esconder meus verdadeiros motivos. Mas muitas vidas foram sacrificadas
enquanto nós tentávamos salvar o Planeta. Tudo foi apenas uma
vingança pessoal então...”
O pecado abalava o coração de Tifa.
Ela imaginava se poderia viver com esses sentimentos. Tifa tinha medo de seu
futuro. Ela olhava para o céu em silêncio.
Ao mesmo tempo, Cloud estava sentado ao lado dela, olhando para o mesmo cenário,
mas ele estava sorrindo. Era um sorriso que ela não havia visto antes,
durante sua jornada. Cloud notou seu olhar e perguntou: “O que foi?”
“Cloud, você está sorrindo.”
“Estou?”
“Sim.”
“Tudo começará agora. Uma nova...”, Cloud procurou
as palavras certas, “Uma nova vida.”
“Eu vou viver. Acho que é a única maneira de eu ser perdoada.
Nós passamos por... Todo tipo de coisa.”
“Acho que você está certa.”
“Mas quando eu penso em quantas vezes eu já quis começar
uma vida nova, é até engraçado.”
“Por quê?”
“Eu nunca consegui.”
“Isso não é engraçado.”
“... Acho que dará certo dessa vez.”
Cloud ficou muito quieto por um momento. E então ele disse: “Porque
você está sempre comigo.”
“Nem sempre eu estive com você.”
“Mas é assim que será a partir de amanhã.”,
Cloud respondeu sorrindo de novo.
Tifa foi ver Aerith com
seus companheiros. Aerith, que agora estava no fundo do lago da Cidade Esquecida.
O mundo que ela quis salvar em troca de sua vida certamente ficaria bem agora.
Isso é o que eles pensavam. Tifa ouviu uma voz perguntando se ela estava
bem. Ela não sabia se era Aerith ou ela mesma. Ela não conseguia
evitar de chorar. Quando Sephiroth tirou a vida de Aerith, Tifa não sentiu
nada. Havia tristeza, mas essa tristeza aumentou ainda mais o ódio que
ela sentia pelo inimigo. Pelo menos agora ela entendia a dor e tristeza que
sentia, com seu coração se partindo sempre que visitava esse lugar.
Ser membro da Avalanche e estar sempre com um grupo grande de pessoas criou
esses sentimentos. As lágrimas não paravam.
“Sinto muito. Sinto muito.”
Ela sentia as mãos de Cloud em seus ombros. Ele a abraçava firmemente,
para que não fosse a lugar nenhum. Por enquanto, ela apenas se permitiria
chorar o quanto quisesse. E então deixaria o resto com ele.
Sozinha, ela não sabia o que fazer.
Tifa e os companheiros com
os quais esteve durante toda a jornada se separaram tão rapidamente quanto
se aliaram. Vincent foi embora sem alardes, como um daqueles passageiros que
se senta a seu lado no trem. Yuffie protestou. Não era certo que eles
se separassem assim depois de tudo que passaram juntos. Barret foi quem disse
a ela que eles poderiam se ver sempre que quisessem. Ou talvez tenha sido Cid.
Após prometerem se reencontrar um dia, Tifa, Cloud e Barret se separaram
dos outros, partindo para a Cidade de Corel. Era a cidade natal de Barret. As
tragédias que aconteceram aqui por causa do Mako foram o que iniciaram
tudo para ele. Ficando em silêncio por um momento, ele disse para os outros
não o seguirem. Ele também tinha que seguir em frente com seus
pecados.
Eles também foram a Nibelheim, a cidade natal de Cloud e Tifa. Eles não
sentiram nenhuma nostalgia. Lembravam-se claramente dos incidentes que aconteceram
na cidade.
“Eu não devia ter vindo.”, disse Cloud. “Isso me leva
de volta ao passado.”
As palavras de Cloud falavam por Tifa também.
Eles foram a Kalm. Lá,
esperando por eles, estava a mãe adotiva de Aerith, Elmyra, e a menina
que foi deixada a seus cuidados, Marlene. Duas parentes de Elmyra moravam em
Kalm, e foi lá que elas ficaram. Barret e Marlene estavam felizes em
se ver de novo. Cloud contou a Elmyra o que aconteceu com Aerith.
Não havia sinais de como eles aceitaram isso, mas Tifa, Cloud e Barret
se desculparam por não terem conseguido salvar Aerith.
“Vocês fizeram tudo que podiam. Não há necessidade
de se desculpar.”, disse Elmyra.
Tifa e os outros não podiam dizer nada em resposta.
“Nós realmente fizemos tudo que podíamos?”
Havia muitas pessoas se refugiando em Kalm. As casas normais viraram abrigos
de emergência. Os moradores de Kalm não os cobravam, embora pudessem
fazer isso. Até mesmo a estalagem providenciou quartos para os necessitados
de graça. Era como se todos estivessem colaborando para reconstruir o
mundo.
“Vamos para casa.”, disse Cloud.
“Para onde?”, Barret perguntou.
“Nossa realidade suspensa.”
“Mas o que isso quer dizer?”
“Nossas vidas normais.”
“E onde nós temos algo assim?”
“Vamos encontrar um lugar.”, Cloud olhou para Tifa e disse: “Certo?”
“É!”, gritou a animada Marlene. Tifa também concordou,
mas como Barret, ela imaginava onde eles poderiam ter uma vida normal.
Os quatro chegaram de volta a Midgar. A cidade se recuperou de todo o choque
e caos que aconteceu depois que o meteoro foi destruído. As pessoas estavam
vivendo de novo, com esperanças no futuro... Não, se preocupavam
apenas com o presente por enquanto. Ver isso fez Tifa se culpar de novo. Quando
ela olhou Midgar do céu, desejou que tudo apenas tivesse sido varrido.
Ela não sabia que ainda havia tantas vidas aqui. Tifa não podia
se perdoar por ter sido tão egoísta. Ela contou a Cloud e Barret
o que estava pensando quando estava na aeronave. Barret e Cloud entendiam como
ela se sentia e concordavam. Não importava onde eles estivessem ou o
que fizessem, não poderiam se livrar dos pecados em suas mentes.
“Já que é esse o caso, vamos viver. Vamos viver até
pagar por nossos pecados. É o único jeito.”, disse Barret.
Quando Cloud e Tifa estavam sozinhos, Cloud disse a ela: “Não é
comum você se incomodar com pensamentos.”
“É... Assim que eu sou.”
“Não. Você é muito mais animada e forte. Se você
esqueceu como você era, então eu vou fazer você lembrar.”
“Vai mesmo?”
“Provavelmente.”, Cloud disse, corado.
A primeira coisa que eles fizeram foi reunir informações em Midgar.
Havia falta de materiais, mas o mais importante, não havia nenhuma informação
circulando sobre o que fazer. Os três se dividiram e saíram dividindo
as informações que tinham com os que precisavam delas, sobre onde
eles podiam conseguir provisões, por exemplo. Eles ajudaram as pessoas
que não podiam se mover sozinhas. À noite, dormiram sob uma parte
do prato de Midgar, que segundo os rumores, podia cair a qualquer hora.
Um dia, Barret apareceu com uma garrafa de vinho, um aquecedor e várias
frutas. Ele os ganhou como gratidão por ajudar a derrubar uma casa.
“Vejam”, Barret disse enquanto habilidosamente preparava uma refeição
que ninguém nunca viu antes. O vinho havia sido deixado em estoque por
duas semanas. Eles descobriram que era um tipo de vinho especial feito na cidade
de Corel. Tifa e Cloud beberam lentamente. Barret literalmente se afogou no
vinho. Ele parecia estar se divertindo, enquanto falava de suas lembranças
de tempos pacíficos. Ele contou de como uma vez bebeu demais e caiu num
poço. Ele também mencionou como esqueceu porque pediu sua falecida
esposa em casamento, que estava bêbado na ocasião. Já fazia
muito tempo que Cloud e Tifa não riam assim.
No dia seguinte, Barret disse num tom sério: “Que tal começarmos
um negócio e vendermos esse vinho?”
“Nós?”, Cloud perguntou, surpreso.
“É claro, seu idiota! Mas nós dois nunca vamos atrair clientes.
Tifa fará isso.”
“Eu?”
“Você é boa nisso.”
Há não muito tempo atrás, o esconderijo da Avalanche era
um bar chamado Seventh Heaven. Esse bar custeava as vidas e atividades dos membros.
Tifa era a garçonete, ou mais corretamente, a dona do bar. Barret continuou.
“Do meu ponto de vista, as pessoas de Midgar podem ser divididas em dois
tipos: os que estão sem rumo e ainda não aceitam o que aconteceu
com a cidade e os que estão trabalhando para seguir em frente. Eu entendo
como ambos se sentem. Todos estão enfrentando seus problemas, mas apenas
encontraram soluções diferentes, certo? A solução
para o problema de todos é vinho.”
“E por quê?”
“Eu não sei. Mas quando estávamos bebendo ontem, nós
rimos. Esquecemos todos os problemas, certo? É esse o momento que estamos
procurando.”
“É, acho que você está certo.”
“Momentos assim são importantes, não? Hei, Tifa, o que você
acha?”
Tifa não respondeu imediatamente. Ela entendia o que Barret estava dizendo,
mas abrir um bar a faria relembrar os tempos da Avalanche de novo. Cloud falou.
“Tifa, vamos fazer isso. Se ficar muito difícil, podemos desistir.”
“Não será difícil. Se Tifa não trabalhar,
ela vai acabar pensando em todos os tipos de coisa. E então ela não
poderá fazer nada.”
Isso pode ter sido verdade.
Os três fizeram os preparativos. Decidiram construir seu novo negócio
na cidade nova, Edge, que ficava a norte de Midgar.
Todas as pessoas que Barret e Cloud haviam ajudado antes se reuniram. Eles transportaram
todos os materiais que seriam usados para construir partes da loja, como paredes
e pilares.
Barret dava ordens escandalosamente, enquanto Cloud os corrigia sem muito alarde.
Tifa, por outro lado, aprendeu a fazer o vinho de Corel e melhorou seu sabor.
Ela também pensava na comida que poderiam colocar no menu. Marlene era
como um mascote do bar. Era como se ela gostasse da idéia de algum dia
ser garçonete ali. Era duro resolver os problemas que surgiam todos os
dias, mas para Cloud, Tifa e Barret, isso servia como distração.
Às vezes, Tifa se sentia culpada por seus pecados quando sorria, mas
esse pensamento logo era interrompido por alguém vindo chamá-la.
Mais alguns dias e eles poderiam abrir o novo bar, Cloud disse. Barret perguntou
o que eles fariam quanto ao nome. Houve algumas sugestões, mas as de
Cloud eram todas sem sentido, enquanto as de Barret sempre envolviam monstros.
No final, Tifa teve de decidir. Os dois homens prometeram não reclamar,
não importando qual nome ela escolhesse. Mas já era quase o dia
da inauguração e Tifa não teve tempo para pensar nisso,
com todo o trabalho que tinha. Um dia, Marlene repentinamente perguntou o que
eles iam fazer quanto ao nome do bar.
“Ainda estamos pensando nisso.”
“Eu gostaria que fosse Seventh Heaven”, disse Marlene. Era um nome
que Tifa queria evitar.
Ter o passado dentro de si já era suficiente. Não havia necessidade
de escolher um nome que a fizesse lembrar dele.
“Por quê?”
“Porque era divertido. Se for Seventh Heaven, todos vamos nos divertir
de novo.”
“Nós havíamos esquecido que Marlene não tem nada
a ver com as ambições e pecados dos adultos. Para ela, Seventh
Heaven era um lar feliz onde Barret, eu e os outros viviam.”
“Hmmmm, Seventh Heaven...”
“Eu não podia apagar meu passado. Só podia aceitar e seguir
em frente.”
Tifa decidiu que estava pronta.
O primeiro dia de funcionamento do Seventh Heaven foi um grande sucesso. O vinho
de Corel era algo que ninguém podia resistir, então o preço
não era nada. Por causa dos ingredientes limitados que eles tinham, não
podiam fazer nenhuma refeição especial. Mesmo assim, as pessoas
procuravam lugares como esse. Um lugar onde pudessem beber com amigos. Um lugar
onde pudessem esquecer a triste realidade ou talvez até mesmo pensar
em um futuro melhor. Aqueles que não tinham dinheiro podiam pagar com
itens. Uma variedade de sucos também era preparada para as crianças.
Eles só serviam aqueles que Marlene experimentava e aprovava. Ela era
alguém que não perdia nada. Marlene era a recepcionista, mas não
ficava até muito tarde. Aqueles que bebiam demais eram convidados a se
retirarem.
Barret organizava os vinhos. Talvez ele planejasse ser o sommelier. O trabalho
de Cloud era obter os ingredientes para as refeições e vinho.
Ele não sabia os nomes da maioria das frutas e vegetais. No início,
Tifa ficou surpresa, mas quando pensou na vida que Cloud levava, compreendeu.
Era engraçado pensar que a nova vida de Cloud iria começar com
vegetais. “Não, eu não devo rir”, Tifa pensava consigo
mesma.
Cloud não era bom em socializar. Ele não era bom em comunicação,
mas mesmo assim, saía para negociar os ingredientes que precisavam. Com
o tempo, ele progrediu.
Após a primeira semana de funcionamento, Barret disse aos outros que
ia partir em uma jornada, já que os negócios estavam indo bem.
Ele ia deixar Marlene para trás.
“Quero partir numa jornada para encerrar meu passado.”
Cloud desaprovou.
“Encerrar seu passado? Mas eu quero fazer isso também.”
“Você pode fazer isso aqui. Não viva apenas tirando algo
dos outros. Tente provar que você pode doar também.”
Marlene, que sempre dormiu com Tifa, dormiu com seu pai adotivo, Barret, na
noite anterior à partida dele. Eles ficaram conversando até tarde
da noite.
Na manhã seguinte, Barret partiu.
Atrás dele, Marlene gritou: “Escreva para mim! Telefone também!”
Barret acenou com seu braço direito artificial. Ele continuou andando,
sem olhar para trás. Era uma figura que até agora não conheceu
uma vida sem lutas.
“Eu imagino que tipo de vida ele encontrará. Espero que fique longe
da guerra. Não apenas tirar algo de alguém. Espero que ele possa
doar também.”
“Seja um bom garoto!”
Cloud e Tifa se entreolharam, enquanto ouviam as palavras de Barret: “Ser
um bom garoto???”
“Eu cuidarei de Cloud e Tifa!”
Barret se virou e disse: “Cuidem-se!”, sua voz estava um pouco trêmula.
“Mantenham a família junta e continuem assim!”
“Amigos eram uma necessidade
para mim, para que eu pudesse viver sem ser esmagada pelos pecados na minha
consciência. Mesmo que eles fossem companheiros de luta, que dividiam
os mesmos sentimentos. Mesmo que fossem companheiros amaldiçoados com
os mesmos pecados. Não podíamos viver sem nos encorajar e apoiar.
Talvez eu possa chamar isso de família. Nós apenas temos que manter
a família junta e continuar assim.”
Tifa acreditava que poderia superar qualquer coisa estando com amigos que pudesse
chamar de família.
Já havia se passado
vários meses desde que eles abriram o bar. Cloud, que havia saído
para buscar o suprimento de ingredientes, telefonou. Ele queria discutir o privilégio
de por quanto uma pessoa poderia comer e beber de graça durante toda
a vida no Seventh Heaven. Tifa sabia o que ele queria dizer sem ouvir a história.
Ela tinha certeza que havia alguma coisa que Cloud queria trocar por esse estranho
privilégio, de qualquer maneira.
Era noite, e Cloud voltou numa motocicleta. Era um modelo que eles nunca tinham
visto antes. Desde então, ele esteve ajustando-a sempre que conseguia
algum tempo livre. Ele procurou um engenheiro conhecido para discutir modificações
na motocicleta. Parece que algumas outras pessoas vieram ajudar Cloud a completar
as modificações. Marlene e seus amigos também observavam.
A cena fez Tifa crer que eles realmente haviam se tornado uma família.
Havia muitas vezes em que Cloud tinha de deixar a cidade para buscar suprimentos.
O destino principal era Kalm. Ele precisava alugar uma moto, um caminhão,
ou até mesmo um chocobo, mas agora, ele tinha sua própria moto.
Ocasionalmente, parece que ele viajava até mais longe e conseguia algumas
especiarias raras.
Uma noite, um telefonema para Cloud. Após conversar um pouco no telefone,
Cloud disse que precisava sair.
“Onde você vai?”
“Como direi isso...”
Cloud disse a Tifa que houve muitas vezes em que ele fez entregas enquanto buscava
os suprimentos. Quem ligou foi o dono de uma loja que fornecia vegetais. Parece
que havia alguma coisa que ele queria que Cloud entregasse de qualquer jeito
antes da noite acabar. Cloud olhou para Tifa como uma criança que acaba
de ter seu segredo revelado.
“Porque você está me olhando assim?”, ela perguntou.
“Bem... Desculpe por não ter dito nada sobre isso...”
“Sobre o quê?”
“Fazer o que eu queria.”
Tifa disparou a rir. Cloud continuou, dizendo que recebia dinheiro extra pelas
entregas. Ele se sentia culpado por gastar tudo nas modificações
de sua motocicleta. Tifa achava que ele estava agindo como uma criança.
Pode ter sido um pouco triste que Cloud encontrou um outro mundo que ela não
conhecia, mas o fato de que este mundo estava se expandindo era um fato bem-vindo.
Sim, era muito bem-vindo. Tifa acompanhou Cloud até a porta, e estava
muito feliz com o que estava sentindo.
Tifa conseguia conviver
com os pecados em sua consciência agora, mas ela não os esqueceu.
Algum dia, ela pode ser punida. Mas até esse dia chegar, Tifa ia olhar
para frente e viver. Ela ia viver não para tirar algo de alguém,
mas para provar que pode doar também.
Tifa encorajou Cloud seriamente
a abrir um serviço de entregas por encomenda. Eles podiam receber os
pedidos no bar. Quanto aos telefonemas, Marlene ou ela mesma podia recebê-los.
Cloud hesitou, mas, após pensar nisso por uma noite, aceitou a sugestão.
Ele estava apenas hesitando de novo, afinal.
E então, esse foi o início do Serviço de Entregas Strife.
Midgar era o centro do negócio, mas eles também faziam entregas
em todo o mundo. Mas apenas nas áreas que Cloud podia chegar de moto,
é claro. Cloud sorria ao ver como era um grande empresário. Seu
trabalho também era um grande sucesso. Era uma época em que enviar
coisas não era tão fácil. Monstros ainda rondavam os campos,
e havia estradas que agora estavam em regiões de perigo, por causa do
Lifestream que se espalhou. Esse trabalho de viajar pelo mundo não era
algo que qualquer um poderia fazer. Era o trabalho que ele estava esperando.
Tifa achava maravilhoso que Cloud, que não era muito social, estava fazendo
um trabalho que ligava as pessoas.
Depois que Cloud começou esse serviço de entrega, a vida da “família”
mudou drasticamente. Não estava muito bom. Cloud normalmente não
estava em casa, exceto pela manhã ou tarde da noite. E, é claro,
isso significava que havia menos oportunidades para os três conversarem.
Tifa tentou fechar o bar uma vez por semana, mas isso não impediu Cloud
de fazer seu trabalho. Cloud não podia negar pedidos. Apesar de Tifa
querer que eles tivessem algum tempo juntos de vez em quando, ela decidiu que
era egoísmo da parte dela. Nesse período, foi Marlene quem notou
uma mudança em Cloud. Ela disse a Tifa que Cloud às vezes olhava
para o céu e não prestava atenção nela.
“Cloud nunca se aproximou realmente de Marlene para conversar, mas tenho
certeza que ele nunca a ignorou antes quando ela falava com ele. Eu sabia que
Cloud tinha suas próprias maneiras de lidar com Marlene. Eu pensava em
como havia milhares de pessoas por aí que não são boas
com crianças, mas têm suas próprias maneiras de se relacionar
com elas. Eu disse a ela que Cloud provavelmente estava apenas cansado, mas
isso me incomodou. Marlene era uma criança sensível às
mudanças dos adultos.”
Durante o feriado, Tifa e Marlene estavam limpando a sala que agora era o escritório
de Cloud. Havia muitos papéis espalhados e desorganizados. Um deles chamou
a atenção de Tifa.
Nome do Cliente: Elmyra
Gainsborough
Entrega: Buquê de Flores
Destino: Cidade Esquecida
Tifa colocou o papel junto
com os outros como se nada tivesse acontecido. Mas ela estava tremendo. Transportar
mercadorias pelo mundo significava que Cloud estava se envolvendo com seu passado
também. Ela sabia que Cloud sofria muito por não ter conseguido
salvar Aerith. Ele já estava quase superando isso, mas voltar ao lugar
onde ele e Aerith se separaram significava que seu sofrimento e remorso voltariam
para partir seu coração.
Era noite, e eles haviam fechado o bar. Cloud estava bebendo vinho, embora ele
raramente faça isso. O copo ficou vazio. Tifa hesitou em enchê-lo.
“Posso me juntar a você?” – ela queria conversar com
ele.
“Eu quero beber sozinho.”
Ouvindo isso, Tifa perdeu o controle e disse: “Então beba no seu
quarto.”
Barret ligou algumas vezes. Quase nunca falava de si mesmo, sempre perguntando
por Marlene. E então, sempre terminava a ligação conversando
um pouco com ela. Marlene olhou se Tifa estava por perto antes de dizer a Barret:
“Cloud e Tifa não estão se dando muito bem.”
Não importa o que estivesse acontecendo entre Cloud e Tifa, eles não
podiam envolver Marlene Tifa pensava nisso.
Tifa se esforçava para falar com Cloud. Quando Marlene estava por perto,
ela escolhia assuntos mais positivos, coisas que não levassem a conversa
a um rumo mais sério. Cloud estava incomodado com a maneira como Tifa
mudava de repente, mas, entendendo o que ela pretendia, ele seguia seu raciocínio
e conversava com ela. Até Marlene se juntava ao assunto.
“Eu gostava desses
momentos. Mas não podia falar sobre o que realmente queria. Eu não
sei o que dizer.”
Um dia, Tifa contou uma
história que ouviu de um cliente.
“Isso é realmente impossível.”, Cloud disse.
“É impossível!”, Marlene gritou.
Os adultos ficaram surpresos, e olharam para Marlene.
“Você já contou essa história antes! Cloud sempre
responde a mesma coisa!”
“Não estava
tudo bem, mas estávamos juntos. Éramos uma família. Vivíamos
na mesma casa e nos sentíamos bem estando juntos. Talvez não houvesse
muitas conversas ou sorrisos. Mas éramos uma família.”,
Tifa pensava. Não, era o que ela queria pensar.
Quando Cloud estava dormindo,
ela disse a ele.
“Nós vamos ficar bem, não vamos?”
É claro, não houve resposta. Apenas o silêncio ecoou. Tifa
imaginava se o fato de ele estar dormindo ali significava que era parte da família.
“Você me ama?”
Cloud acordou, com um olhar dúbio.
“Hei, Cloud. Você ama Marlene?”
“Sim. Mas às vezes não sei como me aproximar dela.”
“Mesmo depois de tanto tempo juntos?”
“Talvez só isso não seja o bastante.”
“Nós não somos o bastante para você?”
Cloud não respondeu.
“Desculpe por perguntar essas coisas estranhas.”
“Não se desculpe. O problema sou eu.”
Cloud fechou os olhos.
“Vamos nos esforçar juntos.”
Cloud não respondeu.
Não muito tempo depois
daquilo, Cloud trouxe Denzel para casa com ele. Denzel já estava inconsciente
quando ele o trouxe até o bar. Era Geostigma. Cloud disse que aparentemente
a síndrome começou há pouco tempo. Enquanto Tifa cuidava
de Denzel, ela pensava em quantas crianças estavam infectadas com a mesma
doença. Havia muitos abrigos para crianças que perderam os pais.
Mesmo assim, porque Cloud trouxe Denzel aqui? Quando Tifa decidiu perguntar
a ele, Cloud murmurou algo.
“Esse garoto veio até mim.”
“O que você quer dizer?”
“Quero dizer...”
Depois que Denzel se recuperou,
Tifa ouviu sua história. Sobre tudo que aconteceu com ele antes de chegar
aqui. Então ela acreditou que ele estava destinado a vir até eles.
Ele foi uma das vítimas de quando o Setor 7 foi destruído.
“O Setor 7 foi destruído
por nossa causa. É por isso que eu tenho que aceitar a responsabilidade
e criá-lo. Ele não foi até Cloud. Ele encontrou Cloud para
vir até mim.”
Tifa conversou com Cloud
e Marlene sobre como ela queria Denzel na família. Cloud aceitou silenciosamente,
mas Marlene ficou cheia de felicidade.
De início, Denzel insistia em ajudá-los como gratidão por
cuidarem dele. Seu coração começou a se abrir mais ajudando
Cloud com seu trabalho e no bar.
Era noite e o bar estava fechado. Enquanto limpava o salão, Tifa olhou
para a mesa do centro. Lá estavam o dono do Serviço de Entregas
Strife, Cloud, e seus dois assistentes, Marlene e Denzel. Denzel às vezes
sofria por causa do Geostigma, mas quando não sentia febre ou dor, ficava
ajudando Cloud. Todos os dias, Cloud passava muito tempo fora. Então
quando ele estava em casa, era o precioso momento de Denzel com seu herói.
Sim, Cloud era um herói para Denzel. Montado em sua motocicleta, salvou
Denzel quando os sintomas do Geostigma apareceram e ele ficou às portas
da morte... Era tudo que Denzel mais desejava. Denzel queria saber tudo sobre
Cloud. Ele ficava perguntando para Tifa quando Cloud não estava em casa.
Uma vez, Tifa, brincando, disse a Denzel que ela é que fazia a comida
todos os dias. Denzel também disse, se vangloriando, que ele limpava
a casa e o bar.
Era verdade e ele era muito bom em limpar. Quando Tifa perguntou se foi a mãe
de Denzel que o ensinou a limpar, ele respondeu que não. No dia seguinte,
Tifa perguntou a Cloud quem foi essa pessoa, pois Denzel havia contado a ele.
Tifa ficou um pouco triste.
“Eu fiquei incomodada
porque ele contou a Cloud apenas. Um dia eu tentei perguntar isso a alguém
da mesma idade de Denzel. Ele respondeu que os garotos são assim mesmo.
Então na verdade não havia nenhum problema. Éramos apenas
uma família normal.”
A resposta não a
fez entender, mas as palavras “família normal” aliviavam
Tifa.
Após fechar o bar,
as três pessoas de sempre se sentaram em volta da mesa. Não seria
uma surpresa se alguém dissesse que era um pai jovem com seus dois filhos.
Se Tifa quisesse, poderia se aproximar, e seria recebida com agradáveis
sorrisos.
Cloud abriu um mapa sobre a mesa. Estava revisando as rotas de entregas para
o dia seguinte. Denzel e Marlene estavam organizando os papéis. Quando
havia alguma palavra que Marlene não conhecia, ela pedia ajuda a Denzel.
Ele então a ensinava, como um irmão mais velho. Quando havia palavras
que nem mesmo Denzel conhecia, ele perguntava a Cloud. Cloud tinha o hábito
de mandá-los escrever a palavra após ensiná-los. Ele dizia
que se não escrevessem, nunca decorariam seu significado. Os vários
nomes de lugares nos papéis deixavam as crianças curiosas, e elas
perguntavam a Cloud como eles eram. As descrições de Cloud eram
simples: “Há muitas pessoas”, “Há poucas pessoas”,
“Há muitos monstros”, “É perigoso”...
Eram descrições que fariam qualquer um perguntar: “Só
isso?”, mas as crianças pareciam satisfeitas. Logo, Tifa quis conversar
sobre esses lugares também. Quando ela adicionava mais detalhes, Denzel
perguntava a Cloud se era verdade. Isso irritava Tifa um pouco. Mas ela também
achava normal. É provavelmente assim que as famílias normais são.
Talvez eles tenham se tornado uma família de verdade depois que Denzel
chegou. Cloud estava claramente trabalhando menos. À noite, sempre reservava
um tempo para ficar com as crianças. As conversas descontraídas
com Tifa também retornaram.
“Então, o problema
foi resolvido?”
“Que problema?”
“O seu problema.”
“É...”
Cloud ficou pensativo.
“Não tem problema se não quiser me contar.”
“Eu não sei explicar direito...”, Cloud avisou antes de começar
a falar. “O problema não está resolvido. Bem, eu acho que
não será resolvido tão cedo. Não há como
recuperar vidas perdidas.”
Tifa concordou em silêncio.
“Mas talvez exista uma maneira de salvar as vidas que estão em
perigo. Talvez até eu possa fazer isso.”
“Você está falando de Denzel?”
“Sim.”
“Hei, você lembra do que disse quando trouxe Denzel aqui?”
“O que eu disse?”
“Você disse que Denzel veio até você.”
“Bem...”, Cloud disse, como uma criança com medo.
“Fale. Decidirei se estou com raiva depois que eu ouvir.”
Cloud aceitou e continuou.
“Denzel estava caído na frente da igreja onde Aerith costumava
ficar. Foi por isso que eu acreditei que Aerith o trouxe ‘até mim’.”
Dizendo isso de uma vez só, Cloud em seguida desviou o olhar.
“Você foi à igreja.”
“Eu não estava planejando me esconder lá.”
“Você estava se escondendo.”
“Me desculpe.”
“Eu não disse que você não podia ir. Mas da próxima
vez, eu vou com você.”
“Eu entendo.”
“E você está errado, Cloud.”
Cloud olhou dubiosamente para Tifa.
“Aerith não trouxe Denzel até você.”
“É, eu acredito nisso agora.”
“Aerith trouxe esse garoto até nós, não é?”
Cloud olhou para Tifa e finalmente sorriu. Um sorriso que guardava uma enorme
bondade, que a fez acreditar que tudo estava bem.