Midgar era dividida como
se fossem dois mundos diferentes. Um era a cidade superior, conhecida como “prato”,
uma terra de aço suportada por pilares. E havia as áreas no solo
que nunca viam a luz do sol por causa do prato. Os subúrbios eram cheios
de vida, apesar de serem um lugar caótico. Devido ao planejamento da
companhia conhecida como Shin-ra, essa cena de luz e sombra prosperando separadamente
parecia que duraria para sempre.
Há quatro meses atrás, quando o Lifestream saiu fluindo da terra,
muitas pessoas acreditaram que seria o fim de Midgar. Aqueles que tentaram fugir
da cidade com seus pertences não conseguiram. Talvez eles tivessem pensado
que poderiam sonhar com prosperidade mais uma vez se estivessem perto dali.
E logo, uma cidade chamada Edge foi construída, em lugar da antiga Midgar.
A rua principal de Edge começava nos limites dos setores três e
quatro de Midgar e seguia para o leste. A cidade em si foi formada em torno
dessa rua principal e se expandiu para noroeste. À distância parecia
ser uma cidade magnífica, mas a maioria dos prédios foi construída
com o lixo que sobrou de Midgar. A cidade cheirava a ferro e pó.
Johnny tinha uma lanchonete na rua principal. Era um estabelecimento humilde
numa área aberta com um balcão, algumas mesas e cadeiras, onde
ele podia preparar refeições simples. O nome da loja era Johnny's
Heaven. Era um nome parecido com o do bar que uma vez existiu nos subúrbios
do Setor 7. O nome deste era “Seventh Heaven”, cuja dona era uma
bela mulher por quem Johnny se apaixonou. O nome dela era Tifa.
Meses após o incidente em que o Setor 7 desabou, Tifa abriu um novo Seventh
Heaven em Edge. Naquela época, Johnny estava inspirado por como Tifa
podia decidir o que ia fazer enquanto o resto do povo ainda estava indeciso.
E então, com essas idéias em mente, ela se tornou uma figura respeitada
na mente de Johnny.
“Eu vou viver como Tifa. Mas como? Já sei! Vou abrir um negócio
também. Vou dar esperança àqueles que perderam a sua.”
Este era o início do Johnny's Heaven. Clientes que vinham à lanchonete
ouviam a história do “renascimento de Johnny” muitas vezes.
Como resultado disso, muitos começaram a se inspirar em Tifa e foram
ao Seventh Heaven, tornando-se clientes regulares de lá. Sem saber nada
sobre isso, Johnny continuava a trabalhar seis dias da semana esperando um público
que viria ouvir sua história cheia de amor e esperança.
Um cliente chegou. Era um garoto. É muito raro uma criança andar
sozinha nessa região. Era Denzel, um garoto que era especial para Johnny.
Ele é uma das pessoas que respeitavam Tifa. Johnny ia dar tudo de si
para ajudar Denzel.
“Bom dia, Denzel.”
Johnny disse abaixando a cabeça para cumprimentá-lo. Mas Denzel
só olhou para ele por um instante antes de ir para a mesa mais distante
do balcão.
“Aproxime-se e sente aqui.”
“Não. Estou aqui para encontrar alguém.”
“Ele está aqui para encontrar alguém? Ele já está
tendo encontros? Mas ele ainda é só um garoto... Bem, não
importa, ficarei observando. Isso tudo é parte do meu serviço
especial.” - E se aproximando - “É um encontro? Boa sorte.”
“Café, por favor.”
“Ele está me ignorando. Ah, deve estar com vergonha.” ...
“Peça ajuda se não souber o que falar. Tenho informações
importantes para você. Sabe que...’
De repente, Denzel se levantou. Ele estava irritado? Johnny olhava para Denzel,
mas o olhar do jovem garoto estava voltado para a entrada.
Um homem de roupas finas estava parado lá. “Bem-vindo”, Johnny
disse ao homem. Era Reeve. Ele era um dos funcionários antigos da Shin-ra.
Era a primeira vez que Johnny via este homem, que agora comandava a WRO. Ele
era famoso pelo cheiro de morte à sua volta.
“Mas o que um homem como ele quer na minha loja?”
Reeve caminhou observando em volta cautelosamente, até finalmente se
sentar na mesma mesa que Denzel. Parecia um hábito dele. Algo passou
pela cabeça de Johnny.
“Reeve está convidando Denzel a se juntar ao exército. Tenho
que impedi-lo. Se alguma coisa assim acontecer no meu bar, nunca mais terei
coragem de encarar Tifa.“
Com isso em mente, sua expressão permaneceu calma enquanto olhava para
Reeve.
“Café, por favor.”, Reeve disse.
“Sim, agora mesmo.”, Johnny respondeu firmemente antes de correr
para a parte de trás do estabelecimento. Ele não é uma
pessoa fácil de lidar.
Denzel estava surpreso de o próprio líder do WRO vi-lo entrevistar
e ficou imóvel, sem sequer conseguir cumprimentá-lo.
“Sente-se.”
Isso puxou Denzel de volta à realidade, e ele se sentou, nervosamente.
“Então, Denzel. Eu não tenho muito tempo, então vamos
direto ao assunto.”, Reeve disse num tom gentil.
“Primeiro, saiba que nós somos diferentes de algum tempo atrás.
A época em que daríamos boas-vindas a qualquer recruta acabou.
Se você só quer ser voluntário para ajudar a reconstruir
essa área, então procure o líder daqui. A WRO agora é
um exército.”
“Sim, senhor. Estou preparado para os perigos.”
“Preparado, uh... Tudo bem. Primeiro quero saber o seu passado.”
“Meu passado? Mas eu só tenho 10 anos...”
“Eu sei disso. Mas mesmo uma criança de 10 anos tem um passado,
não?”
Denzel era o único filho de Eber, que trabalhava no 3º Departamento
de Negócios da Shin-ra, e Chloe, pessoa muito social e excelente dona
de casa. Os três moravam numa casa pertencente à Shin-ra, no Setor
7. Eber estava satisfeito, pois mesmo sendo de um vilarejo pobre, ele conseguiu
formar uma família em níveis superiores. Porém, ele sempre
achou importante ter um objetivo na vida, e por isso almejava morar nas residências
nobres do Setor 3. Quando Denzel fez sete anos, Eber foi promovido a chefe de
departamento. Isso significava que ele tinha as qualidades para morar no Setor
5. Sabendo da novidade, Chloe e Denzel prepararam uma festa. Com uma decoração
infantil e muita comida, eles receberam Eber. Foi um jantar feliz. Enquanto
trocava piadas com seu bem-humorado pai, Denzel também ouviu dele as
histórias da vida.
“Denzel. Você tem sorte de ser meu filho. Se você tivesse
nascido nos subúrbios, estaria comento ratos ao invés de frango.”
“Eles não têm frangos?”
“Sim, eles têm, mas como todos são muito pobres, não
podem comprar. Já que não há mais nada que possam fazer,
eles pegam ratos com lanças. Ratos cinzentos e sujos.”
“Ewww... Parece nojento.”
“Qual é o gosto... Hmmm?”, Eber disse piscando para Chloe.
Esta apontou o dedo para o prato de Denzel.
“O que achou, Denzel?”, ela questionou.
Denzel ficou preocupado e comparou sua comida com a de seus pais. Seu pai olhava
para baixo, tentando não rir. E então Denzel se lembrou de uma
coisa que sua mãe Chloe disse: não há sentido em viver
sem sorrir.
“Eles queriam me assustar de novo”.
“Mas eu não acredito em vocês!”
“Que pais ruins.”
“Eles só gostavam de brincar comigo. Eu não me importava.”
“Bem, pelo que eu sei, ratos não eram comidos nos subúrbios.
Os ratos dos subúrbios daquela época...”
“Eu sei. Eu sei muito bem sobre isso.”
“Oh? Aconteceu alguma coisa?”
“... É uma longa história.”
Quando Denzel estava cuidando da casa, o telefone tocou. Era seu pai.
“Onde está sua mãe?”
Ele parecia nervoso.
“Foi fazer compras.”
“Quando ela chegar, diga para me ligar imediatamente. Não, deixe
para lá, eu ligo depois.”
Sabendo que havia algo errado, Denzel ficou nervoso. Mas como não havia
nada que ele pudesse fazer, ficou assistindo TV enquanto esperava a mãe
voltar. Estava passando uma notícia de um grupo chamado “Avalanche”,
que bombardeou um Reator Mako. Foi por isso que ele ficou nervoso. Não
foi por causa da ligação, ou por causa da demora de sua mãe.
Nessa hora, alguém chegou, mas não era a mãe, e sim o pai.
“Onde está sua mãe?”
“Ela não voltou ainda.”
“Eu vou procurá-la.”
Sem explicar nada, Eber saiu. Denzel foi atrás dele. Quando chegaram
ao distrito de lojas, logo acharam Chloe. Ela parecia estar conversando com
o açougueiro. Eber foi até ela e, sem dizer uma só palavra,
a agarrou pelo braço. Quando Chloe protestou, Denzel sentiu seu coração
pular.
“Me solte! O que é tudo isso?”
Eber olhou em volta e baixou a voz.
“O Setor 7 vai ser destruído. Temos que evacuar para o Setor 5.
Há uma nova casa para nós lá.”
“Eles vão destruir esse lugar?”
“Aqueles que destruíram o Reator Mako nº1 agora alvejam este
setor.”
Denzel olhou para os seus pais. Eles não estavam sorrindo.
“É verdade?”
Denzel agarrou seus pais e disse: “Vamos logo!”
Mas Chloe não se mexeu.
“Não podemos simplesmente fugir. Temos que contar a nossos vizinhos
e amigos.”
“Não há tempo, Chloe. Além do mais, essa é
uma informação confidencial da Shin-ra. Eu já estou quebrando
as regras por contar a vocês dois.”
Irritada, Chloe se afastou e disse a Denzel: “Vá com o seu pai.
Eu irei depois. Vai ficar tudo bem.”
E a mãe de Denzel saiu correndo.
“Hei!”
Eber correu um pouco atrás dela, mas depois parou. Denzel podia sentir
o sofrimento dele.
“Ele quer ir atrás dela, mas eu estou atrapalhando.”
“Denzel, vamos para o Setor 5.”
“Não! Nós temos que ir atrás dela!”
“Mamãe vai ficar bem. Nós somos uma família afinal.”
Um homem alto caminhava com uma mala em direção à divisa
do Setor 7 com o 6. Eber o chamou. Quando o homem viu quem era, se aproximou
assustado.
“Você ainda está aqui, senhor? Os Turks já estão
agindo. Já colocaram quase todas as bombas. Meus colegas conseguiram
transporte para nós.”
O pai de Denzel já havia comentado sobre essa organização
que pertencia à Shin-ra. Todo o trabalho sujo era feito pelos Turks.
Mas o que ele quis dizer com “os Turks já colocaram quase todas
as bombas”? Os Turks são a Avalanche? Denzel não conseguia
entender, mas seu pai interrompeu seus pensamentos.
“Você poderia levar essa criança ao Setor 5? Ele não
causará problemas.”
“Não!”, Denzel gritou.
“Papai vai buscar a mamãe. Agora vá com o senhor Arkham.”
”Mas...”
“Há algum problema, Arkham?”
“É claro que não, senhor.”
“É uma residência da Shin-ra no Setor 5, número 38.
Aqui está a chave. Deixarei com meu filho.”
Eber tirou uma chave do bolso e a deu a Denzel.
“Papai...”
“O papai comprou uma TV grande. Fique assistindo enquanto não chegamos.”
Após acariciar Denzel, ele rapidamente saiu correndo para o Setor 7.
Arkham ajudou Denzel a se recompor.
“Venha comigo. Meu nome é Arkham. Sou um dos empregados de seu
pai. É um grande prazer conhecer você.”
Denzel estava prestes a sair correndo, mas Arkham o impediu.
“Eu entendo como você se sente. Mas eu não posso ir contra
as ordens do seu pai. Por enquanto, vamos para o Setor 5. Depois disso, você
pode fazer o que quiser, OK?”
Na casa nova, não havia nada, exceto a grande caixa com a TV. Arkham
a tirou de lá e a ligou.
Ambos ficaram assistindo as notícias. Mais uma vez, era sobre a explosão
no Reator Mako nº1. Denzel se perguntava quando Arkham iria embora.
“Estou com fome.”
“Tudo bem, vou comprar alguma coisa pra você comer.”
Naquele momento, a casa toda tremeu. Eles ouviram o som de mísseis por
todo o lugar. Quando Arkham abriu a porta, ainda ouviram o barulho de metais
batendo.
“Espere aqui.”, Arkham disse enquanto saía. Quando Denzel
estava prestes a segui-lo, uma nova notícia surgiu na TV.
“Notícia urgente.”
Uma tela mostrou uma cidade destruída. Embora Denzel estivesse no Setor
7 há até alguns minutos atrás, demorou a reconhecê-lo.
Quando a imagem mudou, o anunciante disse: “Esse é o estado atual
do Setor 7.”
O Setor 7 não existia mais. Denzel saiu correndo de casa. As ruas estavam
um caos. As pessoas estavam desesperadas, acreditando que o Setor 5 seria o
próximo.
Denzel nem sabe por quanto tempo correu. Ofegante, chegou à divisa com
o Setor 6. Os soldados fizeram uma barreira. Ele correu até eles para
olhar para o Setor 7. Mas não havia nada lá. Era como se nunca
tivesse existido. Era até possível ver o Setor 8 do outro lado.
“Hei, é perigoso aqui.”, um soldado disse.
“Onde você mora?”
Ele apontou para o espaço vazio.
“Entendo... É uma pena...”, ele disse num tom gentil.
“E seus pais?”
Mais uma vez, ele apontou para o espaço onde o Setor 7 costumava ficar.
O soldado suspirou profundamente e disse: “É tudo culpa da Avalanche.
Não se esqueça disso. Quando você for mais velho, vingue-se
por eles.”
O soldado virou Denzel na direção do Setor 6 e disse para ele
ir embora. Ele caminhou distraidamente, sem notar todas as pessoas se refugiando
ali.
“Qual lugar será o próximo? Papai! Eu vou ficar bem aqui?
Mamãe! Não vou perdoar esses bandidos da Avalanche! O que a Shin-ra
está fazendo? Papai! Mamãe! Onde vocês estão?”
A voz miserável de Denzel não desaparecia. Ele não conseguia
mais andar. E não conseguia parar de chorar.
Episódio 1-2
“Foi a Shin-ra?”
“Sim.”
Reeve olhava para longe. Parecia estar determinado a não mostrar sinais
de emoção.
“Se você me odeia, pode fazer o que quiser comigo.”
Denzel abaixou a cabeça.
Era domingo. Quando acordou, Denzel estava em seu novo lar no Setor 5. Ele tinha
certeza de que aquela cama não estava ali antes. Perto dela estava uma
carta e um lanche.
“Estou no escritório. Virei ver como você está mais
tarde. Não vá muito longe de casa. Todo mundo está muito
nervoso agora, então não é bom se envolver. E principalmente,
seria difícil te encontrar. Você é uma criança muito
importante. P.S.: Eu peguei a cama emprestada no vizinho, depois devolva. -
Arkham.”
A imagem do Setor 7 desabando não saía da TV. A Shin-ra também
não parava de anunciar que agora Midgar estava segura. Os pais de Denzel
estavam mortos, mesmo que eles dissessem que estava seguro, então ele
não concordava com isso. Ele realmente imaginava se todos poderiam viver
em paz depois daquilo. Como ele poderia sobreviver? Logo Denzel não conseguiu
mais ficar em casa e saiu.
Estava quieto. No centro de Midgar, ele podia ver a grande Torre da Shin-ra.
“Papai e mamãe podem estar vivos e terem ido trabalhar. Afinal,
esse é o horário de trabalho deles. É por isso que não
estão. Já que essa área é de residências da
Shin-ra, então alguns de seus conhecidos podem estar aqui.”
Denzel não era muito bom em conversar com estranhos, mas decidiu tomar
coragem e tentar.
Primeiro ele foi até a casa à sua direita e tocou a campainha.
Ninguém atendeu. Ele tentou abrir a porta. Ela não estava trancada,
então ele entrou e disse: ”Olá?”
Ele esperou um pouco, mas nenhuma resposta veio. Parece que Arkham pegou a cama
nessa casa. Será que ele simplesmente roubou a cama?
Depois foi à casa vizinha. A do outro lado da rua. A casa da esquina.
Uma casa mais distante. A maioria delas tinha um papel na porta com um endereço
para contato para abrigo.
Não havia ninguém lá também. Não parecia
possível que seus pais estivessem no escritório. Se estivessem,
eles teriam ido ali. “Mesmo que fosse impossível para o meu pai,
minha mãe viria.”
As esperanças de Denzel se partiam cada vez mais. Quando percebeu, estava
perdido. Não sabia como havia chegado ali. Lágrimas escorriam
pelo seu rosto, mas ele sentia mais ódio que tristeza. Ele parou e sentou
na rua. Havia algo em seu bolso. Era um modelo de avião da Shin-ra. Denzel
o jogou longe, gritando.
“Eu odeio tudo!”
O som de vidro quebrando ecoou, e uma voz de mulher se seguiu.
“Quem fez isso?”
Antes que Denzel percebesse o que tinha feito, uma mulher saiu da casa da frente
e se aproximou.
“Foi você?”, ela perguntou, segurando o modelo de avião.
Ele negou, mas com um rosto de culpa.
“Ora... Você está chorando?”
Denzel abaixou a cabeça para negar, mas não conseguiu esconder
suas lágrimas.
“Onde você mora?”
Ele estava nervoso por não poder responder. Mais lágrimas caíam.
“Entre.”
O interior da casa da mulher chamada Ruvi era muito diferente do da de Denzel,
e era muito confortável. O papel de parede era um padrão cheio
de flores, seguido pelos tapetes e sofás. Havia algumas flores artificiais
para decoração, mas era uma sala que dava uma sensação
de calor e tranqüilidade. Ruvi estava limpando os cacos de vidro da janela
quebrada.
“Quando meu filho voltar, eu faço ele consertar.”
“Me desculpe, senhora Ruvi...”
“Se a situação fosse outra, eu te agarraria pelo pescoço
e levaria até os seus pais!”
“Meus pais, eles...”
“Não me diga que eles fugiram e deixaram você para trás.”
“Eles estavam no Setor 7.”
Ruvi parou o que estava fazendo e veio abraçar Denzel.
Depois que ele se acalmou, ela disse que iam sair.
Eles iam procurar a casa de Denzel. Caminharam de mãos dadas. Denzel
não andava de mãos dadas com seus pais desde os seis anos. Parecia
infantil. Mas naquele momento, ele não queria soltar aquela mão.
A Shin-ra estava conseguindo casas para seus funcionários desabrigados.
As famílias eram mandadas para Junon ou Costa Del Sol. Ruvi disse que
se eles a mandassem para algum lugar em que ela fosse ficar sozinha, ela preferia
ficar ali mesmo. Eventualmente, eles encontraram a casa de Denzel.
“Obrigado... E desculpe pelo vidro.”
Ruvi ficou quieta. Denzel abriu a porta e ia entrar.
“O que você planeja fazer numa casa que não tem nada? Venha
morar comigo.”
E assim, ele foi morar com Ruvi.
Quando o Reator Mako nº1 foi destruído, Ruvi soube que haveria problemas,
então ela comprou muita comida. Sua despensa estava abarrotada.
“Você não precisa se preocupar com nada.”
Ruvi estava ocupada todos os dias. Limpando a casa, cuidando do jardim, cozinhando...
Denzel ajudava no que podia. Antes de ir dormir, ele lia histórias infantis.
Ruvi, por outro lado, lia um livro grosso que parecia difícil de entender.
Quando Denzel perguntava se o livro era bom, ela não respondia. Dizia
apenas que era de seu filho. Ela já lia o livro há cinco anos,
na esperança de entender como era o trabalho de seu filho. Ela ria ao
perceber que sempre dormia quando ia ler.
Ruvi deu a Denzel uma enciclopédia de monstros que ela disse que seria
útil de ler. Era outra coisa que pertencia a seu filho, e ele a leu quando
tinha a idade de Denzel. Havia uma imagem de todos os monstros e uma descrição.
Todas as páginas tinham a mesma coisa escrita: “se você encontrar
um monstro, fuja e fale com um adulto”. Denzel imaginava que se ele encontrasse
um monstro, tudo que tinha a fazer seria falar com Ruvi. Mas ela não
parecia saber lutar. Então ele teria de lutar? Ele conseguiria? Ele venceria?
Denzel se achava inútil. Acreditava que por isso seus pais tinham ido
embora e lhe deixado.
O sol estava mais forte, e Denzel estava suando.
“Puxa... Está tão quente.”, Reeve disse a Johnny.
Denzel pegou um lenço para secar seu suor.
“Um lenço interessante. Parece de menina.”
“E é.”, Denzel disse, olhando para o lenço.
Um dia, quando Denzel acordou, Ruvi estava lá segurando uma camisa.
“Vista isso. Eu fiz para você, mas não tinha nada masculino
para usar.”
Na camisa branca, havia inúmeras flores rosas. Era uma coisa que Denzel
normalmente não ficaria feliz em usar, mas ele vestiu com satisfação.
“E isso eu fiz porque sobrou pano. Pode ficar.”
Ruvi disse isso segurando um lenço com o mesmo padrão.
Parecia que sobrou muito pano, porque havia vários lenços. Denzel
pegou um e guardou no bolso.
“E...”, o sorriso de Ruvi desapareceu, “Como eu devo dizer
isso...”
Denzel imaginava o que ela ia dizer. As palavras que ele mais temia ouvir não
saíam de sua cabeça. “Vá embora”. O corpo de
Denzel tremia de medo dessas palavras.
“Vamos lá fora.”
Ruvi levou Denzel ao quintal. Ele hesitava, mas a seguiu. Ruvi parou e olhou
para o céu.
Denzel também olhou. Havia uma bola cinzenta no céu. Era um mau
presságio. Até ontem, o céu era apenas azul e branco. Algo
estava errado.
“Eu não sei nada sobre isso, mas parece que se chama Meteoro. Dizem
que quando ele chegar ao Planeta, estará tudo acabado.”
Ruvi foi à cozinha preparar o almoço.
Naquele dia, Ruvi não limpou, não lavou roupas, não fez
nada. Só ficou sentada no sofá, lendo.
Quando alguma coisa veio em mente, ela foi ao telefone. Parece que ninguém
atendeu do outro lado. Denzel imaginava que ela estava ligando para seu filho.
Ele queria perguntar mais sobre o Meteoro, mas não conseguia. À
noite, Ruvi começou a limpar a casa, como se tivesse voltado ao normal.
“Denzel, a maneira que você limpa não é boa. O que
você está pensando?”
Era a Ruvi de sempre de novo.
Já tarde da noite, estavam os dois no sofá, lendo, como sempre.
Mantendo seus olhos no livro, Ruvi disse:
“Denzel. Eu planejo esperar pelo fim aqui. Se o Planeta vai morrer, então
não importa onde eu estou. Em qualquer lugar será igual. O que
você vai fazer? Se você quer ir para algum lugar, eu não
me importo que leve a comida da casa. Você ainda é uma criança,
então acho que você tem o direito de decidir onde quer estar no
final.”
Denzel pensou muito no que ela disse. E então, fez a pergunta que não
conseguiu fazer o dia todo.
“Eu posso ficar aqui?”
Ruvi olhou para ele e sorriu.
Desde então, Ruvi voltou ao normal. Ela continuava limpando a casa, arrumando
o jardim... Só não limpava o lado de fora da casa. Essa tarefa
era de Denzel.
Denzel viu que algo estava sendo construído na Torre da Shin-ra. Em pouco
tempo, um canhão gigante estava no teto. Ruvi disse que a Shin-ra pretendia
destruir o Meteoro.
“Aquela companhia está sempre errada.”, Ruvi disse com um
olhar triste.
Eventualmente, o canhão atirou para alguma direção estranha
e quebrou. Não muito tempo depois, a própria Shin-ra foi atacada
e destruída. Denzel não conseguia imaginar que monstro era aquele,
que podia destruir um prédio inteiro. Ele decidiu perguntar a Ruvi. O
Meteoro estava no céu como sempre. Em outras regiões, havia grandes
distúrbios, mas a vida pessoal de Denzel permanecia a mesma.
Havia vezes em que Denzel não conseguia segurar a tristeza por seus pais
e chorava. Ruvi sempre o acalmava, abraçando-o.
Se o fim ia vir mesmo, então ele queria estar com Ruvi.
O que tirou a paz de Denzel no final não foi o Meteoro, mas sim as águas
brancas. Como resultado do Lifestream que o Planeta liberou, o Meteoro foi destruído,
mas aquela energia também trouxe destruição para a humanidade.
Um dia, quando eles iam dormir, o som de um vento forte ecoava lá fora,
mas era forte demais para ser apenas um vento comum. Logo, toda a casa começou
a tremer.
O fim havia chegado. Seria bom se acabasse rápido, Denzel pensava, mas
o som e o tremor aumentavam lentamente. O som foi ficando tão forte,
era como se um trem estivesse passando dentro de casa. Denzel se segurou em
Ruvi, e fechou os olhos.
“Ruvi, estou com medo!”
Ruvi se levantou para acender as luzes, mas nesse momento as cortinas de flores
começaram a brilhar em branco. Era como se toda a casa fosse engolida
por luz.
“Cubra-se com o cobertor!”
Enquanto Ruvi saía do quarto, o tremor aumentava violentamente e os vasos
de flores caíam no chão. Denzel levantou da cama e foi atrás
de Ruvi.
Ruvi estava na janela da sala de estar. Era a janela que ele havia quebrado,
que Ruvi tampou com vinil. O vinil estava inflando, como se fosse explodir.
Ruvi correu para a janela para tentar segurá-lo.
“Denzel! Volte para o quarto!”
Denzel estava tremendo. Ele não conseguia se mexer, era como se seus
pés estivessem pregados no chão.
“Fui eu quem quebrou a janela. A culpa é minha se alguma coisa
acontecer.”
Ruvi deixou a janela de lado e veio até Denzel, levando-o apressadamente
até o quarto. Nessa hora, o vinil quebrou e raios de luz branca invadiram
a casa. Gritando, Ruvi fechou a porta, ficando do lado de fora do quarto.
“Ruvi!”, Denzel gritou enquanto tentava abrir a porta.
“Denzel, pare!”
“Mas!”, ele disse enquanto continuava tentando abrir a porta.
Ruvi fazia o máximo que podia para segurar a porta. Com as duas mãos.
“Denzel, mantenha a porta fechada!”
Em volta de Ruvi, muitos raios de luz atravessavam as paredes por todos os lados.
Era como se uma serpente brilhante estivesse à solta na sala.
Não era um monstro da enciclopédia. Fugir e contar a um adulto
não ia funcionar.
“Ruvi!”, ele gritou quando a luz atacou Ruvi. A luz mudou de forma
para o que parecia uma fina corda, entrando forçosamente no quarto pelo
buraco da fechadura.
Ruvi caiu no chão, enquanto Denzel foi agarrado pela luz.
Episódio 1-3
Denzel não sabia
quanto tempo ficou inconsciente. Quando acordou, a casa estava totalmente arrasada.
Ruvi estava caída lá. Quando Denzel chamou por ela, ela abriu
os olhos um pouco e disse que estava feliz porque ele estava bem. Ela então
pediu que Denzel lhe desse a mão. Ele estendeu sua mão. Ruvi a
segurou, mas Denzel não sentia nenhuma força vindo dela. Ela disse
que não podia segurar as mãos do filho dela porque ele cresceu
muito. Ela estava feliz por Denzel ser uma criança. Ruvi perguntou o
que estava acontecendo lá fora. Denzel estava um pouco preocupado e foi
ver. Era de manhã. Tudo em volta estava tão ruim quanto a casa
deles.
Denzel continuou falando de cabeça baixa, enquanto Reeve fechou os olhos
e ouviu.
Após ir lá fora, Denzel voltou para a casa de Ruvi. Todas as janelas
estavam quebradas. Era o mesmo com todas as outras casas da região. Havia
casas até sem telhado e algumas com buracos enormes na parede. Tudo acaba
do mesmo jeito afinal. Ele começou a pensar que mesmo que ele não
quebrasse as coisas, elas acabariam do mesmo jeito. Mas ele não gostava
de pensar assim.
Ruvi passou por tantos problemas para protegê-lo e lá estava ele,
como se não tivesse nada com isso.
Quando Denzel voltou para o quarto, Ruvi parecia estar dormindo. Ela tinha uma
expressão tão pacífica no rosto. Ele estava preocupado,
então a chamou.
“Ruvi.”
Ela não respondeu.
“Ruvi!”, ele gritou mais alto.
Um fluido negro saiu da boca de Ruvi. Acreditando que era um sinal de morte,
Denzel limpou o mais rápido que pôde. Mas havia mais saindo de
seu cabelo. Ele começou a passar mal. Saiu correndo da casa, morrendo
de medo.
“Papai! Mamãe! Me ajudem!”, ele gritava. Continuou gritando
até não conseguir mais. Agora, Denzel só podia chorar.
“Hei, não chore.”, alguém disse. Um homem grande estava
diante de Denzel. Atrás dele estava um pequeno caminhão com cerca
de 10 pessoas.
“O que você está fazendo aqui? O anúncio da TV disse
para todos se refugiarem nos subúrbios.”
Denzel sentiu que o homem brigaria com ele se ele não desse uma boa resposta.
Tremendo, ele disse:
“Eu não vi TV.”
“Puxa! Todos por aqui acham que vai ficar tudo bem ou falam que não
sabem!”
Todos no caminhão pareciam ter tomado a decisão errada.
“E onde está sua família?”
“Ruvi está lá dentro.”
“O homem se chamava Gaskin. Ele enterrou Ruvi para mim. As pessoas do
caminhão também ajudaram. Eles a enterraram no quintal, junto
com o livro de seu filho. A terra lá era tão macia que todos ficaram
surpresos. Normalmente você alcançaria o prato em pouco tempo.”
“Talvez ela estivesse planejando plantar vegetais ou algo assim. Já
que ela veio do interior, seria lógico.”
“Acho que ela queria cultivar flores.”, Denzel respondeu olhando
para seu lenço. “Havia muitos enfeites de flores na casa e flores
artificiais também. Eu acho que ela realmente queria plantar flores...
O filho dela trabalhava na Shin-ra, e morava em Midgar. Tenho certeza que ele
ficaria feliz em ver algumas flores aqui, no único lugar onde havia terra
boa... Desculpe... Eu falei demais.”
Reeve fez sinal de que não havia problema e continuou ouvindo.
Logo, o caminhão em que eles estavam chegou à estação,
onde havia um trem parado.
Gaskin disse: “O trem não está funcionando. Realmente não
há esperança de restaurar esse lugar. Mas felizmente, os trilhos
ainda estão ligados à superfície. Se seguirmos os trilhos,
poderemos descer até lá.”
“É perigoso aqui?”, alguém perguntou.
“Quem sabe. Por enquanto, é muito mais seguro lá embaixo,
não?”
Ele continuou e disse a Denzel: “Tome cuidado. Ninguém tem condições
de cuidar de você. Você terá que fazer isso sozinho.”
O caminhão deu uma volta em U e partiu. Muitas pessoas estavam reunidas
na estação. Aquela luz branca afetou toda Midgar. Aqueles que
tiveram seus lares destruídos e aqueles que pensaram que a cidade cairia
logo vieram para cá. Mesmo assim, muitos ainda hesitavam em seguir a
trilha para o solo. Ao invés de ouvir gritos de felicidade agora que
o Meteoro se foi, só se ouvia reclamações sobre o conselho
incompleto que eles receberam. A população estava dispersa e dividida
em grupos enquanto caminhava pelos trilhos. Eles não sabiam o que estava
à frente, mas a única pessoa liderando era Gaskin. Era óbvio
que não tinham escolha a não ser obedecê-lo.
Na pista cheia de metal e madeira, Denzel podia ver a superfície do solo
à distância. Eles estavam tão alto que seria morte certa
cair dali, então todos tomavam o máximo de cuidado. A pista era
grande e parecia dar a volta em toda Midgar, mas estavam todos tão concentrados
em descer, que realmente não podiam se preocupar com isso.
De repente, todos pararam. Os adultos se aglomeraram. Parecia haver algum problema.
Entrando na multidão, Denzel viu um garoto de cerca de três anos
preso entre os trilhos, numa posição perigosa.
“Se ele é a causa do nosso atraso, então podemos simplesmente
deixá-lo”, foi o que Denzel pensou. Alguém perguntou a ele:
“Onde está sua mãe?”
O garoto começou a chorar, gritando por sua mãe e balançando
no espaço entre os dois trilhos. Parecia que ele ia cair, então
Denzel correu e agarrou seu braço. Ele pôde ouvir os adultos cochichando.
Alguém disse: “Hei, aquele menino está infectado!”
“Não o toque, é contagioso!”
Eu não tinha idéia do que eles estavam falando.
“Hei, afaste-se!”, alguém gritou nervosamente. Denzel queria
responder, mas não sabia quem havia falado. Não havia nada que
ele pudesse fazer, então apenas levantou o garoto e o colocou de volta
num lugar seguro. Denzel estava pensando porque ninguém ajudou, mas logo
entendeu. As costas do garoto estavam cobertas de uma substância escura.
Agora que o caminho estava livre de novo, as pessoas continuaram a andar. O
garotinho continuou a chorar, dizendo as palavras “está doendo”
e “mamãe”. Denzel se lembrava de alguém ter dito “é
contagioso”. Ele sentiu vontade de chorar. Quando ajudou o garoto a se
levantar, Denzel se lembrou de Ruvi. Lembrou de como sentiu nojo quando viu
aquele líquido saindo da boca de Ruvi, apesar de ela ter sido tão
boa com ele. E por isso ele queria pagar por esse pecado ajudando o garoto.
Ele queria que Ruvi o perdoasse. Denzel se aproximou dele e perguntou:
“Onde dói?”
“Minhas costas.”
“Suas costas doem, é?”
“É.”
Denzel tocou de leve as costas do garoto. Quando Denzel tinha dor de estômago,
Chloe o acariciava e então melhorava. Ela fazia o mesmo quando ele caía.
Talvez Denzel pudesse usar um pouco dessa mágica também.
Denzel começou a acariciar as costas do garoto, enquanto tentava ignorar
a substância negra. Embora estivesse doendo, o garoto logo dormiu.
Três horas se passaram. Ele continuou cuidando do menino. As outras pessoas
continuaram descendo, ignorando-os.
“Ele está morto.”
Olhando para cima, Denzel viu o rosto cansado de uma mulher.
A mulher carregava um bebê no colo, e uma garota de mais ou menos a mesma
idade de Denzel a acompanhava.
“O lenço dele parece de mulher. Estranho, não, mamãe?
Vamos.”
A mulher tirou a jaqueta da menina e deu a Denzel.
“Vista isso.”
A garotinha ficou aliviada. Parecia que ela estava vestindo três peças
de roupas.
“Você pode ficar com ela. É da minha irmã, por isso
é tão grande.”, a menina disse.
Denzel olhou para o garoto deitado no chão. Ele não estava respirando.
Denzel estava completamente sem forças. A menina pegou a jaqueta de sua
mãe e cobriu o menino. Seu corpo agora estava escondido dos curiosos.
“Ele vai ficar com a minha irmã.”, ela disse.
“Obrigado”, Denzel disse com todo o seu coração. A
mãe começou a andar de novo e a menina a seguiu. As duas estavam
com as mãos cobertas de preto.
Olhando para o enfeite de chocobo na mochila da menina, Denzel pensava:
“Todos vão morrer por causa daquela coisa preta? Todos estamos
condenados?”
“Na época, nós não sabíamos nada sobre o Geostigma.
Aqueles que banharam seus corpos no Lifestream iam para o “mar”
e morriam. As pessoas diziam que era contagioso, através do toque. Na
verdade, era só porque os pensamentos de Jenova estavam misturados no
Lifestream, e nada mais... Mas não importa. Mesmo que soubéssemos
disso na época, a situação não mudaria.”
“Você está certo. Especialmente as crianças.”
“É. Quando eu estava no trilho, meu desejo era me tornar logo um
adulto. Eu queria diminuir o número de coisas que não conseguia
entender.”
Denzel observava distraidamente as pessoas que fugiam para a estação
nos subúrbios. Uma após a outra, elas deixavam os níveis
superiores. A maioria pensava que seria o fim se parassem. Ele tinha que fazer
isso também, mas não conseguia abandonar a esperança de
encontrar alguém conhecido ali.
Enquanto andava pela estação procurando comida, Denzel encontrou
um lugar pouco distante com bagagens jogadas. Perto dali, muitos homens estavam
trabalhando. Parecia que estavam cavando um buraco. Com uma rajada de vento,
o cheiro de carne podre veio voando. Um homem carregando uma mulher jovem nos
ombros veio e a colocou no buraco. Era um cemitério temporário.
Quando Denzel estava prestes a fugir em pânico, encontrou uma bolsa familiar
entre a bagagem. Tinha um enfeite de chocobo. Denzel nem sabe porque, mas correu
e abriu a bolsa. Havia alguns biscoitos e chocolate dentro. Ele pensou na garota
a quem a bolsa pertencia. Ela não estava mais aqui.
“Coma”, uma voz disse. Era Gaskin.
Ele realmente não era alguém que Denzel gostaria de ver.
“Está preocupado com a doença? São apenas rumores.
Pode até ser verdade, mas no momento, são apenas rumores. Além
disso, você vai realmente morrer se não comer nada. Se você
vai morrer mesmo, não é melhor fazer isso de estômago cheio?”,
ele disse comendo alguns biscoitos.
“Bom! Ainda estão na validade. Se você simplesmente deixá-los
aqui, eles vão apodrecer. Isso seria um desperdício. Aqui, pegue
alguns.”
Denzel comeu alguns biscoitos também. Ele estava feliz em poder sentir
esse gosto de novo. Ele se virou para a bolsa e disse: “Obrigado”.
Gaskin acariciou sua cabeça.
Ele era muito diferente do pai de Denzel, mas a maneira como ele o acariciou
foi a mesma. Cerca de um ano depois, Denzel estava vivendo exatamente naquele
lugar. Seu primeiro trabalho foi encontrar comida entre a bagagem.
Ele também fez amigos depressa. Todos eram crianças que perderam
os pais. Os amigos de Gaskin também aumentaram. Ele os chamava de inúteis
que não sabiam pensar e não conseguiam ficar sem exercício.
Eles foram o primeiro grupo a começar a fazer enterros. Denzel às
vezes até se encontrava rindo. Ele começou a sentir que podia
ser ele mesmo de novo. Porem, cerca de duas semanas depois, o número
de pessoas vindo de Midgar para se refugiar estava diminuindo, enquanto não
havia mais pessoas forçadas a vir a essa área. O papel deles na
estação estava chegando ao fim. Denzel passou muitas noites em
claro pensando no futuro.
Um homem estava andando sozinho e parecia estar procurando alguma coisa. Ele
se aproximou deles.
“Eu quero um cano de aço. Seria ótimo se eu pudesse reunir
uma grande quantidade.”
Eles saíram em busca dos canos de aço. Encontraram muitos nas
ruínas do Setor 7.
O homem agradeceu e foi embora. Desde então, ele voltou muitas vezes.
Após a terceira visita, ele trouxe amigos com ele.
Na verdade, uma nova cidade estava sendo construída na área leste
de Midgar e por isso eles estavam procurando por materiais. As crianças
recebiam comida em troca de qualquer coisa que pudessem encontrar.
Logo Denzel e seus amigos começaram a responder como o “Time de
Busca do Setor 7” e recebiam muitos pedidos. Todos os dias eram divertidos.
Eles estavam orgulhosos de levar uma vida onde trabalhavam como adultos. Havia
noites em que eles choravam e pensavam em seus pais, mas sempre um ajudava o
outro. As palavras “um por todos, todos por um” estavam sempre com
eles. Mas eles nunca imaginaram que o forte poder do destino não deixaria
as coisas continuarem assim.
Um dia, Gaskin reuniu seus amigos e as crianças do chamado time de busca.
Ele disse que todos iam participar da construção da cidade nova
e iam se mudar. Justo quando parecia que tudo estava decidido e que não
havia nenhuma objeção, uma das crianças fez uma pergunta.
Ele esteve coçando o peito o tempo todo enquanto Gaskin falava.
“Sr. Gaskin, você está se sentindo mal?”
“Só um pouco”, Gaskin disse, antes de cair no chão.
Uma substância negra saiu.
“Um mês depois, Gaskin morreu. Eu o enterrei num lugar especial.
Todas as pessoas boas morrem, não é?”
Reeve continuou em silêncio. Denzel tomou um gole de café. Era
amargo, a bebida que ele mais odiava. Mas ele queria poder aproveitar seu gosto
como os adultos faziam.
Episódio 1-4
Todos os adultos se foram,
e restavam apenas cerca de 20 crianças no time de busca do Setor 7.
Eles sabiam que a nova cidade se chamava Edge e que estava se desenvolvendo
bem. Eles também sabiam que havia um lugar para órfãos
lá. Mas na cidade que eles tinham construído, não precisavam
depender de adultos para sobreviver. Não havia razão para saírem.
Eles também pensavam como seria ruim serem tratados como órfãos
desprotegidos. Mas isso não impediu a cidade de alcançar um novo
nível. Maquinaria pesada de diversas regiões era transportada
para lá e logo o desenvolvimento cresceu. O trabalho que eles desenvolveram
era muito mais do que Denzel e os outros fizeram nesse tempo todo. Membros começaram
a abandonar o time de busca aos poucos. Em pouco tempo, apenas seis restaram.
Todos estavam com fome. Eventualmente a última menina do grupo também
disse que ia para Edge.
Denzel sorriu.
“O que foi?”, Reeve perguntou, confuso.
“Eu odiava aquela garota. Eu a deixei se juntar a nós apesar de
todos os outros meninos reclamarem que ela seria um peso. O trabalho era difícil,
já que havia menos de 10 pessoas.”
Reeve riu.
“Mas agora eu sei. Sobre porque eu, como posso dizer... Porque eu ficava
nervoso ou frustrado com coisas tão normais.”
“Você devia agradecer a ela.”
“Ela não está mais por perto.”
Quando Denzel acordou, tudo que restava do time de busca era ele e um garoto
chamado Rix.
“Agora vai sobrar mais comida”, Denzel disse sorrindo.
“Não que seja algo para nos orgulhar”, Rix disse.
“Vou comprar o café-da-manhã e procurar um trabalho.”
“Hei, espera um pouco!”
Rix foi até onde eles mantinham o cofre e o abriu.
“Hei, Denzel! Estamos com problemas!
Dentro do cofre, não havia dinheiro suficiente para comprar uma só
fatia de pão. Eles ficaram quietos por um tempo. Rix foi o primeiro a
falar.
“Não temos escolha a não ser viver em Edge. Lá teremos
comida de graça.”
“É, nós perdemos. Não quero morrer de fome.”
De repente, Denzel se lembrou de algo que seu pai falou.
“Que tal pegarmos ratos para comer?”
“Ratos?”
“É. Eu ouvi dizer que nos subúrbios todos eram tão
pobres que comiam ratos. Ratos cinzas e sujos. Estes são os subúrbios
afinal, e nós somos pobres.”
“Você está falando sério?”
“É, eu vou comer ratos. Vou virar um morador do subúrbio
de verdade.”
Rix lentamente se levantou e limpou a sujeira da roupa. Denzel se levantou também
e olhou para os lados.
“Vamos pegá-los com lanças.”
“Faça isso sozinho. Eu moro nos subúrbios desde o dia em
que nasci.”
Denzel percebeu seu erro e queria se retratar.
“... Eu não sabia.”
“E se você soubesse? Nós não teríamos ficado
amigos?”
“Nada disso!”
“Quem sabe? Você morava no abastado prato afinal.”
“Rix...”
“Lembre-se disso. Todos os ratos por aqui foram contaminados por bactérias
horríveis graças à água poluída que vocês
jogavam em nós. Não há ninguém aqui que seria estúpido
o bastante para comê-los!”
Dizendo isso, Rix deixou Denzel para trás.
Denzel suspirou.
“Eu não fui atrás dele. Achei que não me perdoaria...”
“E por quê?”
“Eu realmente era um garoto do nível superior afinal. Eu estava
me acostumando bem com as redondezas da estação e toda a poeira
do Setor 7, mas eu nunca pensei em ir aos subúrbios. Eu não queria
ir a Edge porque achava que seria mais um lugar igual aos subúrbios.
Um lugar pobre e sujo.”
“E Rix?”
“Ele está bem. Mas não sei detalhes.”
“Isso é bom. Você ainda tem uma chance de fazer as pazes
com ele então.”
Denzel afiou as pontas das barras de aço que reuniu para usar como lanças,
e saiu em busca de ratos. Ele planejava comê-los depois de encontrá-los.
“Papai, o povo dos subúrbios nunca comeu ratos.” Mas ele
planejava fazer isso. Ele não tinha dinheiro e nem trabalho. Era ainda
pior que os subúrbios. Ele era uma criança do Setor 7 que não
podia crescer.
A solidão levou embora a sua vontade de viver. Denzel estava de volta
como era quando o Setor 7 foi destruído. Mas o que era diferente desta
vez é que ele se lembrava de todas as pessoas que o acolheram e o ajudaram:
seus pais, Arkham, Ruvi, Gaskin e o time de busca. Nada mais podia acontecer.
Ele sentia que não sabia mais sorrir. Mas não há sentido
em viver sem sorrir. “Não é verdade, mamãe?”
“Hei, espere um pouco aí!”, Johnny interrompeu. Sem que Denzel
e Reeve percebessem, ele estava ali ao lado deles o tempo todo, ouvindo a história
de Denzel.
“Foi o que eu pensei na hora. Mas eu estava enganado. É por isso
que estou aqui agora.”
“É, você está certo.”
“Foi por causa das boas memórias que você tinha.”
“Mas eu estava no pior estado possível.”
Não havia ratos em lugar nenhum. Em pouco tempo, Denzel estava procurando
na área dos subúrbios do Setor 5. Havia uma igreja lá.
E havia uma motocicleta abandonada ali. Foi a primeira vez que ele viu uma coisa
como aquela. Mas o que chamou sua atenção foi o telefone celular
preso ao guidão.
Um sorriso invadiu seu rosto.
“Vou pegar emprestado um pouco. Será divertido se funcionar.”
Ele chegou perto da bicicleta e pegou o celular. Enquanto discava o número
de sua antiga casa no Setor 7, Denzel imaginava o telefone tocando.
“Todos os telefones do Setor 7 estão desativados.”
Na época em que trabalhava com o time de busca, Denzel também
procurou os seus pais, mas não conseguiu achá-los. Ainda devem
estar soterrados. Ele não tinha mais esperanças que estivessem
vivos.
“Todos os telefones do Setor 7 estão desativados.”
Ainda com o telefone no ouvido, ele olhou para cima. Denzel podia ver o fundo
do prato do Setor 5. Ele se deu conta de que ali em cima, Ruvi estava dormindo.
Ele estava debaixo de um túmulo. Era por isso que era tão solitário.
“Todos os telefones do Setor 7 estão desativados.”
Denzel apertou o telefone e pensou em atirá-lo no chão. “Por
favor, me empreste ele de novo.” Denzel ia discar o número de Ruvi,
mas nunca o soube. Então ele olhou a lista de chamadas do celular.
Denzel discou o primeiro número da lista. Ouviu a linha chamando. Alguém
atendeu rapidamente.
“Cloud, é tão raro você me ligar. Aconteceu alguma
coisa?”
Ele ouviu a voz da mulher em silêncio.
“Cloud?”, a mulher perguntou, em tom de dúvida.
“... Eu não sou ele.”
“... Quem é você? Esse celular é do Cloud, não
é?”
“Eu não sei. Eu não sei o que fazer.”, a voz de Denzel
tremia.
“... Você está chorando?”
Denzel sentia as lágrimas escorrendo pelo rosto. Ele fechou os olhos
para limpá-las, mas sua cabeça começou a doer. Seu corpo
todo tremeu, e ele deixou cair o celular. Ele se contorcia no chão, enquanto
a dor aumentava. Sentiu uma substância estranha na palma da mão.
Sentiu como se gritasse que não queria morrer. Mas a dor não ia
embora, e então ele rezou com todo o seu coração. “Não
seja negra, não seja negra.” Enquanto tentava resistir à
dor, ele abriu os olhos. A substância era negra.
“Eu não me lembro do que aconteceu depois. Quando acordei, estava
numa cama. Tifa e Marlene olhavam para mim. E então, depois disso...
Você sabe o que aconteceu, senhor.”
“Vagamente.”
“Eu estou vivo graças a todo tipo de gente. Meus pais, Ruvi, Gaskin,
o time de busca... Pessoas vivas, pessoas que já morreram, Tifa, Cloud,
Marlene e...”
Reeve entendeu e consentiu.
“Eu quero ser como eles. Desta vez, eu quero proteger alguém.”
Reeve ficou quieto.
“Por favor.”, Denzel pediu.
“Não! Não, não!”, disse Johnny.
“Você fica quieto!”
“Você é só uma criança!”
“Isso não tem nada a ver!”
“Não”, Reeve começou a dizer, “A verdade é...
A WRO não aceita mais crianças.”
“Viu só?”
“Então porque você não me falou desde o início?”,
Denzel gritou.
“Bem, eu apenas decidi isso agora. Enquanto ouvia a sua história.
Há coisas que apenas crianças podem fazer. E é isso que
eu quero que você faça.”
“... O que você quer dizer?”
“Aumentar o poder dos adultos.”
Denzel esperava que ele continuasse, mas Reeve se levantou como se tivesse terminado.
“Oh, e...”
Denzel olhou para Reeve com esperança.
“Obrigado por cuidar de minha mãe.”
Reeve tirou um lenço do bolso e limpou o rosto. Era um padrão
de flores.
Quando Reeve saiu, Johnny começou a limpar a mesa. Denzel olhou para
seu próprio lenço, que estava sobre a mesa.
“Sabe...”, Johnny parou e disse, “Você pode lutar sempre
que quiser. Não há necessidade de se juntar a WRO. Porque você
está tão preocupado?”
“Cloud. Ele...”
“O que tem ele?”
“Há muito tempo atrás, quando ele estava no exército,
ele era forte. Eu quero ser forte também.”
“Os tempos... Mudaram, sabia?”
“Como?”
“Bem, aqueles que diminuem as dores das pessoas são populares hoje
em dia, mais populares até do que aqueles que usam armas.”
“Não é como se eles quisessem ser populares.”, Denzel
friamente disse a Johnny, enquanto se lembrava de todos que lhe encorajaram.
Todos aqueles homens, mulheres, adultos e crianças que o ajudaram tanto.
Caso de Denzel, Fim.