The
Maiden Who Travels The Planet (A Dama que vaga pelo Planeta) é
uma história OFICIAL que conta a viagem de Aeris pelo Lifestrean
após sua morte nas mãos de Sephiroth, narrando seus
encontros com outros personagens que também se foram e desvendando
detalhes bem interessantes sobre o enredo.
Essa
história estava presente apenas no Final Fantasy VII Ultimania Guide,
mas agora você encontra ela completamente traduzida em português
aqui na FFB, créditos ao Lydsson Gonçalves que traduziu tudo.
Confiram.
Prólogo
Na
água...
Aerith
estava afundando. Imóvel com a expressão facial de quem está
apenas dormindo, ela aos poucos afundava no lago frio e tranqüilo. A rede
de luz criada pelo movimento das águas da superfície dançava
sobre seu corpo inerte. Era como se tentasse segurá-la.
Seu belo rosto não poderia mais mostrar aquela expressão cheia
de energia. O sentimento de felicidade e diversão que contagiava a todos
em sua volta, o carinho que ela demonstrava aos fracos, e as infinitas lágrimas
que ela derramou em segredo... Nenhum deles voltará a aparecer.
Seu corpo ficará em silêncio por toda a eternidade.
Todavia, isso não significou o fim de Aerith. Ela estava vendo tudo.
Não através de seus lindos olhos verdes, mas através de
sua alma... Ela via tudo através de um corpo desencarnado cheio de energia
vital, quase que formando um novo corpo físico. Ela observava, enquanto
a superfície do lago se afastava. Ela observava, enquanto formas humanas
a fitavam do enevoado outro mundo. Ela observava o rosto de Cloud, que demonstrava
estar com o coração partido pela tristeza de perdê-la, o
ódio e revolta por não ter conseguido impedir que ela fosse levada.
“Não se culpe. Não há com o que se preocupar. Tudo
ficará bem, mesmo que o meteoro caia. Então não se deixe
levar por esses sentimentos. Apenas pense em como você pode ser você
mesmo.”
Ela tentou dizer, mas seus lábios não se moviam. Não havia
magia que a permitisse alcançar Cloud enquanto ele desaparecia ao longe.
A luz que vinha da superfície do lago ficava fraca e distante. Aerith
afundava lentamente nas ruínas dos Cetra, a Cidade Esquecida. Aerith,
a última descendente dos Cetra, cumpriu sua missão de proteger
o Planeta. O último lugar que ela deveria alcançar não
chegava, não importava o quanto ela afundasse...
Capítulo 1
Sim.
Não importava o quanto ela afundasse.
Ela havia chegado ao fundo do lago. Mas ainda assim, Aerith continuava a afundar.
Seu corpo físico, apenas alguns minutos depois de perder sua vida, agora
estava no fundo do lago, coberto da vegetação submarina típica.
É a triste prova de como ela foi separada de sua curta vida de vinte-e-dois
anos para sempre. A matéria que foi separada do espírito lentamente
retornava à Grande Terra nas águas puras.
A consciência de Aerith prosseguia para o próximo nível.
Nada havia mudado quando ela respirou levemente na poeira que a cercava. Aerith
continuava a afundar no pesado caminho da precipitação. A única
coisa que ela conseguia ver era uma grande escuridão... Mas mesmo sem
luz, era um mundo calmo, acolhedor, onde ela não se sentia sozinha.
Ela logo percebeu que aquilo não era poeira ou lama. Seus sentidos se
ajustaram para que ela pudesse sentir as coisas à volta. Seus cinco sentidos
estavam num patamar mais elevado agora, tanto que ela podia sentir a verdadeira
natureza dos objetos.
O mundo que ela via agora não era de trevas.
Ela estava cercada por uma fraca luz esverdeada. Ao mesmo tempo, ela reconhecia
o que via. Energia que se dividia em milhares, não, milhões de
fluxos envolviam e circulavam cada parte do Planeta. O raio de luz que a cercava
era um desses fluxos. A quantidade de energia Mako que o Planeta possui é
algo muito além da imaginação humana e não pode
ser descrito com palavras ou imagens.
Aerith sentia como se o Planeta pulsasse. Ela podia ver o brilho do Lifestream
que estava em toda parte. Ela reconheceu a fonte de vida para a qual todos retornam.
Era um lugar cheio de energia, onde incontáveis almas se uniam com seus
conhecimentos e experiências. Até mesmo suas memórias eram
independentes deles. Mas Aerith estava “inteira”. Ela mantinha sua
individualidade no lugar onde as mentes dos mortos se espalhava e se partia,
mantendo a personalidade que tinha quando era viva. Ela manteve a consciência
de Aerith Gainsborough, que ela fora até pouco tempo, mesmo agora, no
Lifestream.
Ela não sabia o que iria acontecer.
Como a última Cetra viva, ela tinha a missão de manter a riqueza
da Grande Terra durante sua vida. Aerith falou com o Planeta. Falou com a consciência
que era parte do Lifestream. Ela então soube que a morte não é
o fim da vida.
A maioria dos humanos imagina que a morte significa se tornar um “nada”.
Ter a consciência engolida pela escuridão, para jamais despertar
novamente, um vazio que não pode ser compreendido. Eles imaginam que
a morte é a aniquilação total. É por isso que os
humanos temem a morte. Eles têm medo de perder sua existência. Mesmo
que eles entendam que são uma raça de vida curta, muitos tentam
evitar isso. Mesmo aqueles que chegaram a uma idade elevada após uma
vida compensadora.
Aerith sabia que a morte não significava ser aniquilada. Ela até
sabia sobre um mundo que um Cetra alcançaria no final, após cumprir
a missão recebida para com o Planeta. Foi por isso que ela aceitou a
morte sem medo, mesmo quando ela soube que a hora estava chegando. Ela cumpriu
sua missão, ciente das conseqüências, sem nenhum medo. Seu
coração estava em paz, embora os humanos, que perderam a capacidade
de falar com o Planeta há muito tempo, digam que ela morreu sob circunstâncias
não-naturais. Ela não tinha remorsos de querer estar viva, porque
cumpriu sua missão.
Mesmo assim, ela estava triste. Seu coração sofria.
Todos os companheiros com quem ela viajou, as primeiras pessoas que se aproximaram
dela, a mão que a acolheu e criou durante quinze anos, Elmyra, as pessoas
que ela não conhecia muito bem, as pessoas que ela poderia vir a conhecer
no futuro, as pessoas que ela poderia ter conhecido... É fato que ela
não poderia mais estar entre os vivos.
Aerith também sabia que a tristeza também estava com aqueles que
ela deixou para trás. Eles não sabiam que ela ainda existia como
alma. Eles não precisavam saber. Afinal, mesmo que eles soubessem, a
tristeza não seria curada pela verdade. Mas pensar na dor de todos fazia
Aerith sofrer ainda mais.
Aerith sofria ainda mais quando pensava em Cloud.
Ela também tinha bons sentimentos por ele. No início, ela pensou
ver nele semelhanças com seu primeiro amor. Mesmo assim, sua aparência,
voz e personalidade não eram iguais e a faziam pensar nele como uma pessoa
misteriosa... Mas isso logo não importou mais. Ela o amava muito mais
que seu primeiro amor. Cloud era seu herói e ele não conseguia
se afastar do perigo. Ela o via como uma pessoa cheia de confiança, inteligente,
e ela tinha a impressão que ele desapareceria num instante se ela tirasse
os olhos dele. Ela queria ficar ao lado dele para sempre se pudesse. Ela queria
mesmo.
Quando Aerith deixou seus companheiros para trás e partiu sozinha para
a Cidade Esquecida, o coração de Cloud era como um ovo prestes
a rachar. Era como se sua mente fosse se partir. Ela queria confortá-lo.
Se ela não fosse a última sobrevivente dos Cetra, ela provavelmente
teria feito isso sem hesitar.
Mas...
O homem de preto de cabelos prateados, que uma vez foi um herói, herdou
toda a vontade do “desastre que caiu do céu”, Jenova, e estava
num estado de loucura. Ele iria evocar a mais poderosa magia de destruição,
Meteoro, usando a Materia Negra. Tendo recebido a missão de seus ancestrais
Cetras, Aerith não tinha escolha a não ser cumpri-la. Mais cedo
ou mais tarde, Sephiroth iria evocar o gigantesco meteoro que certamente infligiria
uma enorme quantidade de dano ao Planeta. O ferimento seria tão grande
que poderia destruir o próprio Planeta. Sem dúvida, o Planeta
então concentraria uma grande quantidade de Lifestream para curar a si
próprio. A intenção de Sephiroth era tomar todo esse poder
para si. Depois disso, ele se tornaria um só com o Planeta, tornando-se
virtualmente um Deus. Ele então provavelmente condenaria todos os humanos
que ele tanto odeia à agonia e a morte. O futuro do planeta e todo o
ciclo de vida acabariam.
Aerith podia sentir, através dos murmúrios do Planeta, que algo
poderia ser feito para impedir o pior de acontecer. Ela também sabia
que era algo que somente ela, a última Cetra, poderia fazer. Ela só
poderia obter o conhecimento para isso na Cidade Esquecida. Mas ir até
lá também significaria tornar-se a maior obstrução
aos planos de Sephiroth.
Era onde Aerith poderia ter hesitado. Ela deixaria todos os humanos morrerem
ou evitaria tal desastre em troca de sua própria vida...? Mas ela nunca
chegou a pensar nisso, e já estava preparada. Quando ela hesitava por
ter que deixar Cloud em sofrimento, pensava em como ela não poderia deixar
de salvar seus amigos e o mundo. Ela já estava decidida. Não havia
escolha. Era por Cloud também.
E então, sozinha, ela partiu para o altar da Cidade Esquecida, para descobrir
o que deveria fazer. Realmente, a chave era a última dos Cetra. Era a
Materia Branca que os Cetra passavam de geração a geração...
Como se carregasse o destino da última Cetra, essa relíquia podia
evocar a definitiva Magia Branca, Luz, necessária para contra-atacar
Meteoro. Era a Materia que foi confiada a Aerith por sua mãe, Ifalna.
Ela nunca a havia usado antes e a escondia sob seu laço, jamais deixando-a.
Ela tinha a Materia Branca. Descobrindo que a chave estava em suas mãos
o tempo todo, Aerith orou com todo o seu coração. Através
da Materia, ela falou com o Planeta, tentando evocar a Magia Branca Luz, que
destruiria o Meteoro.
Mesmo a menor hesitação poderia significar que suas orações
não alcançariam o Planeta. Mas ela conseguiu. Os requerimentos
foram cumpridos antes de Sephiroth atacá-la, após perceber suas
intenções. Ela aceitou a morte que sentiu há tempos quando
a espada a perfurou. E fechou os olhos em paz...
Mas um choro veio até ela.
Não era o som dela mesma chorando. Se fosse, então ela teria sentido
o sangue escorrendo pelo seu corpo e a fúria que tentava escapar das
profundezas de sua alma... Era o som do coração de Cloud se partindo.
Era o lamúrio de seu coração, que jamais poderia ser curado
do choque gerado pela morte de Aerith, a culpa sentida por ele e o ódio
por Sephiroth.
Ela estava surpresa em ver o grande sofrimento que ele teve. Ela estava feliz
por ele sentir tanto por ela, mas também sofria uma dor muitas vezes
maior por vê-lo sofrer. Não havia nada que ela pudesse fazer pelo
sofrimento de Cloud e pela dor em seu coração.
A dor continuava, mesmo quando ela estava no Lifestream.
Embora tenha perdido seu corpo, Aerith reconhecia a dor criando uma imagem de
si mesma em sua mente. E logo, ela percebeu algo.
Tudo em volta dela era a existência de um incontável número
de existências. Havia muitas vozes e uma abundância de memórias.
Todos em volta dela eram algo que ela nunca sentiu quando estava na igreja em
Midgar. Como ela, as almas daqueles que morreram retornaram ao Planeta, e estavam
todos aqui.
Mesmo assim, ela não conseguia ver ninguém por perto que mantivesse
uma forma, como ela mantinha. Aparentemente, apenas ela mantinha a imagem de
sua forma passada no meio da energia cheia de consciências misturadas.
“Será que... É porque sou Cetra?”
As palavras saíram como um murmúrio de Aerith. Aqui, palavras
e pensamentos são iguais. Como uma entidade de consciência, seus
pensamentos e sentimentos eram expressados pelas ondas vibratórias que
ela emitia. Similarmente, o grande número de memórias no Lifestream
também chegava a ela através de todo tipo de onda. Por toda a
volta, ela ouvia murmúrios de que se você não possui uma
personalidade forte, logo não sabe mais qual consciência é
a sua própria.
“Eu gostaria que minhas palavras chegassem a Cloud...”
Aerith fechou os olhos brevemente, como se estivesse descontente. Ela não
era afetada pela confusão das várias consciências que existiam
no mar de memórias e conhecimento dentro da energia Mako. Por causa de
sua experiência em ouvir as vozes do Planeta desde pequena, Aerith desenvolveu
muita paciência. Ela cresceu desenvolvendo a consciência, fortalecendo
sua personalidade.
Mas ela entendia que retornar ao Planeta dependia de como ela se separaria do
“inteiro”. Mesmo quando gotas de água caem num lago, elas
se misturam e não podem mais ser vistas. Não importa o quão
acostumada com isso ela estivesse, Aerith ainda achava estranho sua alma permanecer
única no vasto mar de energia consciente.
“Mas o Lifestream deve ser um Cetra também, como eu. Minha mãe
morreu, e ela também era Cetra... Já faz quinze anos. Nesse tempo,
talvez eu desapareça e me torne um com o Planeta também."
Olhando para os lados, ela pensava mais sobre o assunto.
“Eu poderei falar com Cloud em algum lugar? Só para dizer que estou
bem... É um pouco estranho dizer que estou bem, mas talvez eu possa descobrir
mais sobre mim mesma aqui.”
Talvez ela pudesse entender melhor sua afeição para com Cloud
aqui. Então talvez eles fossem vistos como uma família de apaixonados...
Durante sua vida em Midgar, ela sentiu muitas almas daqueles que tentaram confessar
seu amor. Aqueles que ainda possuíam esses sentimentos ou que deixaram
esses sentimentos para trás podiam fortemente manter sua consciência
“inteira”.
“Mas isso significa que desaparecerei quando encontrar Cloud? Imagino
se é isso que está acontecendo ou... Ainda há mais alguma
coisa que eu tenho que fazer...?”
Nesse instante, Aerith sentiu algo como um choque elétrico a atravessar.
Ela fechou uma das mãos em punho e acertou a palma da outra mão.
Era apenas ela imaginando sua forma espiritual chocando as mãos, mas
ela claramente podia ouvir o “bang”.
“Faz sentido. Há um significado para tudo isso. Deve haver uma
razão para eu não ter me fundido ao Lifestream ainda e estar aqui
como estou. Assim como eu era a única no Planeta que podia conjurar Luz...
Ainda deve haver mais alguma coisa que eu tenho que fazer.”
Assim que esse pensamento passou por sua mente, ela sentiu uma pequena comoção
do Planeta. Não era das consciências individuais, mas o Planeta
como um todo parecia querer confirmar o que ela estava dizendo.
“...Entendo. Mas o que será que é...?”
Sua dúvida foi respondida com silêncio. O Planeta também
não sabia o que era.
Ela sorriu como as flores que ela costumava vender nos subúrbios. Na
cálida luz fluorescente, o sorriso que era amado por todos cresceu docemente.
“Está tudo bem. Ainda há pessoas das quais não quero
me separar. Não posso descansar ainda. Até essa hora chegar, vagarei
por aqui por um tempo. Se eu passar meu tempo aqui no Planeta... Na nossa Terra
Prometida...”
Desejando poder afastar seus pensamentos, Aerith olhou para o céu...
Ela olhou além dos limites do Planeta acima dela. As partículas
de Mako que flutuavam e brilhavam pareciam o céu noturno para ela.
Ela olhou para o céu, como quando estava ao lado de Cloud ao redor da
fogueira em Cosmo Canyon.
Capítulo 2
No
mundo de Mako - Aerith sabia que o conceito de distância aqui é
diferente da superfície.
O tempo parecia passar lentamente se ela quisesse, e também podia voar
num piscar de olhos. A passagem do tempo em Mako na verdade não tem significado.
A história do Planeta é feita de memórias acumuladas, e
agora todas estavam unidas e bem ao lado dela. Havia memórias do presente
e também do passado. Não há maneira de Aerith ter conseguido
ver todas elas, mas os eventos gravados nas memórias ultrapassaram o
tempo e agora estão unidos como um todo. Isso indicava que o tempo estava
avançando para o futuro no mundo dos vivos. Enquanto essas novas memórias
da superfície se fundiam com o Planeta, novas vidas eram levadas ao mundo,
com a energia do Planeta como dirigente. Esse ciclo mostrava a Aerith como o
tempo segue de um período a outro.
Tudo está ligado ao interior do Planeta através do Lifestream.
Mesmo na superfície, nos lugares mais distantes, o fluxo de energia consciente
seria alcançado. Por outro lado, havia lugares tão próximos,
mas que ao mesmo tempo, a energia não alcançava. Há regiões
onde até mesmo o fluxo de Mako não consegue alcançar. Aerith
pensava ser culpa dos reatores Mako. A energia nunca deveria ter sido usada
daquele jeito e, se eles continuassem a sugá-la à força,
isso eventualmente romperia o equilíbrio. Se o Planeta pudesse ajudar
os humanos a viver uma vida mais fácil, ele provavelmente faria isso.
Mas a Shin-Ra estava indo longe demais. Se seus atos continuassem, então
o equilíbrio do Planeta entraria em colapso... Aerith se lembrava de
como as flores só cresciam na igreja de Midgar, embora toda a cidade
estivesse cheia de Mako.
“E é por isso que todos da Shin-Ra querem saber onde está
a Terra Prometida. Um lugar abundante de energia Mako, onde apenas os Cetra
sabem chegar... Mas este lugar é aqui. É o lugar onde todos eventualmente
irão, quando retornarem ao Planeta. A terra onde a Shin-Ra poderia obter
toda a energia que quer não existe, não é? Tudo foi um
grande engano.”
Ela pensava, enquanto se deixava levar pelo Lifestream. Aerith olhava para o
mundo de Mako em movimento, que apresentava poucas mudanças.
“A Terra Prometida que Sephiroth tem em mente é muito diferente.
Ele planeja criá-la à força. Ele pretende ferir o Planeta
propositadamente para que toda a energia se concentre num só lugar. Para
que ele possa controlar tudo sozinho. Essa é a Terra Prometida que Sephiroth
quer...”
Aerith tremia enquanto imaginava o que aconteceria ao Planeta.
“Imagino se Cloud e os outros estão bem... Espero que ele e Tifa
não estejam se esforçando demais indo atrás de Sephiroth...”
“...Cloud? Tifa? Barret?”
As ondas de uma das consciências ao lado de Aerith se expandiram como
se reagissem a suas palavras. Ela se apressou para sair da corrente em que estava,
porque era a primeira vez que ela encontrava outra consciência firme além
dela ali. Ao se aproximar do lugar de onde a intervenção veio,
uma sombra se formou em Mako. Não era uma imagem clara como a de Aerith,
mas era possível reconhecer que era uma mulher.
“Você os conhece? Quem é você?”
“Eu sou...”
Parecia que a memória estava distorcida. Provavelmente era porque a maior
parte da alma já havia se fundido com o Mako. Mas seu âmago não
havia se decomposto e ainda estava aqui como um todo.
“Oh, eu tenho que me apresentar primeiro. Sou Aerith. Acaso você
poderia ser um dos membros da Avalanche?”
“Avalanche... Sim, é isso.”
As memórias estavam sendo reconstruídas no mar de Mako. Dando-se
conta de quem era mais uma vez, a figura transparente rapidamente retornou à
forma que tinha quando estava na superfície. Como se Aerith tivesse alguma
influência sobre ela, as cores também estavam voltando.
Comparada com Aerith, ela ainda parecia frágil, mas parecia mais humana
agora, e suas roupas também reapareceram. Seu cabelo era negro, preso
em rabo de cavalo para não atrapalhar e suas roupas pareciam as de um
soldado. Ela também chegou aqui cedo demais e tem quase a mesma idade
de Aerith.
“Como fui capaz de esquecer... Eu sou Jessie da Avalanche. Hei... Você
é a senhorita Aerith?”
“Pode me chamar de Aerith.”
“Obrigada, Aerith. Você conhece Cloud, Tifa e Barret, não?
Como estão todos? Ainda estão lutando contra a Shin-Ra? Oh...”
Jessie abaixou a cabeça como se quisesse se desculpar. “Você
deve estar como eu agora que veio aqui.”
“Não se preocupe. Tenho certeza que todos estão bem.”
Ela mudava seus pensamentos, tentando evitar a imagem de Cloud. Aqui, ela não
poderia esconder, então teria que não pensar nele.
“Houve um incidente que incomodou Barret por muito tempo. Então
foi lá que você morreu... Você era uma das pessoas que estava
tentando proteger o pilar do Setor 7 como membro da Avalanche na época.
Eu só tinha conhecido o senhor Wedge.”
“Wedge?!”
Os olhos de Jessie se abriram. “Sim, e Biggs também! Nós
três chegamos aqui juntos, mas nos perdemos... Até um momento atrás,
eu não me lembrava de nada. Até encontrar você, Aerith.”
Como se guiadas pelas memórias de Jessie, mais duas figuras apareceram.
As formas de um homem magro e de um outro mais cheio rapidamente se formaram.
“Wo- Woah.”
O maior, Biggs, olhou para as palmas de suas mãos. “Eu ainda sou
eu... Pensei que fosse desaparecer.”
“Estou tão feliz de poder ver vocês de novo. E... Você
é aquela que cuidou de mim daquela vez, senhorita... Aerith, certo? Você
morreu também?”
Ao invés de dar a resposta óbvia, Aerith sorriu.
“Já faz muito tempo, senhor Wedge. É bom vê-lo também,
senhor Biggs. Depois daquilo, eu me tornei membro da Avalanche também,
então isso me torna uma espécie de caloura entre vocês,
não?
“Hmmm, acho que isso mostra que ser da Avalanche traz consigo uma grande
probabilidade de morte.”
“Barret ainda é o mesmo? Ele é uma pessoa muito imprevisível.”
“Caloura? Ah, estou tão feliz! Eu sempre quis ser veterano em alguma
coisa!”
Depois disso, Aerith contou aos três o que a Avalanche estava enfrentando
agora. Não era apenas a Shin-Ra, mas também uma existência
muito mais perigosa, conhecida como Sephiroth... Eles saíram de Midgar
para impedir a ambição de Sephiroth de tomar o Planeta para si.
“Então Cloud é um de nós agora... Estou feliz.”
“He he... Ele é um cara frio, mas eu sabia que se juntaria a nós.”
“Isso significa que o senhor Cloud é um calouro também?
Ele vai ser difícil de lidar.”
Havia muita comoção entre os membros da Avalanche enquanto eles
conversavam e sorriam. Mas no final, Aerith percebeu suas tristezas. Um remorso
profundo abatia os três.
“O que foi? Todos vocês parecem estar sofrendo...”
“Bem... É por causa da maneira como nossas vidas terminou. Não
podemos nos redimir agora.”
Jessie olhou para baixo tristemente, enquanto Biggs continuou.
“Nós lutamos como a Avalanche porque dividíamos a mesma
simpatia e desejos. Pensávamos que seria inevitável fazer alguns
sacrifícios para deter a Shin-Ra. Mas estávamos completamente
errados. Nós entendemos isso quando chegamos aqui... Você também
sabe, não é, Aerith? Sobre a explosão do Reator Mako do
Setor 1.”
“Sim... O Setor 1 não ficava muito longe dos subúrbios onde
eu morava. Não soubemos dos detalhes, mas ouvi dizer que muitas pessoas
morreram...”
“Naquela época, nós só pensávamos que eles
estavam recebendo o que mereciam se foram pegos na explosão, já
que na parte de cima estavam todos que trabalhavam para a Shin-Ra. Mas no final,
todos nós acabamos aqui, tendo trabalhado para a Shin-Ra ou não.
Então estamos pensando em porque fizemos tudo isso. Tudo que fizemos
na verdade foi aumentar o tom de voz e gritar nossa opinião bem alto,
como um bando de bêbados. Nós estávamos exagerando em nosso
método para salvar o Planeta...”
“...Eu também não pensava muito na época. Eu não
queria viver uma vida pequena. Eu queria brilhar. Então eu pensei que
me juntando a Avalanche, eu poderia ser um herói que salvaria o futuro
do Planeta, e era só nisso que eu pensava... Eu nunca imaginei que acabaria
envolvendo outras pessoas. É tão idiota...”
Wedge abaixou a cabeça, envergonhado.
“Todo o plano na verdade foi criado pela antiga Avalanche, que não
existe mais.”
Jessie comentava, com remorso:
“Havia muitos outros membros na Avalanche e eram um grupo muito mais radical.
Nós só herdamos o nome desse grupo de resistência, Avalanche,
das pessoas que não estavam mais por perto. Mas detalhes de como fazer
uma bomba e os planos de onde colocá-la foram deixados no computador.
Já que eu era boa com maquinaria e bombas, decidi experimentar... Mas
tenho certeza que esse plano nunca foi criado com a simples intenção
de desabilitar o reator Mako 1. As pessoas que criaram esse plano horrível
odiavam a Shin-ra. Eles a odiavam tanto que iriam longe o bastante para sacrificar
pessoas... Eu devia ter percebido. Barret não sabia de nada disso.”
“É por isso que nós...” - Desolado, Biggs olhava para
o céu - “É por isso que nós queremos retornar ao
Planeta agora mesmo. Nós queremos desaparecer. Mas é impossível.
A luta de Barret para salvar ainda mais pessoas... Não podemos fazer
nada disso para pagar por nossos pecados. Só podemos continuar aqui e
sofrer.”
“No fim das contas, foi fácil esquecer quem éramos porque
nós queríamos estar em paz aqui.”
“Simplesmente não dava certo. Quando tínhamos uma chance,
voltávamos à maneira que éramos. Mas mesmo assim nunca
fomos uma entidade tão clara como você. É como se fosse
uma maldição.”
Os três pararam por um breve momento, que culminou num suspiro.
“Mas... Mas...” - Aerith tentava confortá-los com suas palavras
- “Todos cometem erros. Eu, por exemplo, estava vendendo flores sem pensar,
por dinheiro.”
“Hmmm... Eu realmente não posso comparar minha estupidez com isso.”
“Mas vocês estiveram sofrendo todo esse tempo...”
“Obrigado, Aerith. Mas como um veterano da Avalanche, é uma história
muito vergonhosa. Toda essa conversa séria parece que me cansa.”
“Eu realmente não posso me perdoar. É por isso que essa
é a única maneira de eu estar aqui.”
“Ainda chegará o dia em que poderemos retornar ao Planeta, mas
neste momento nós não podemos. Agora vá, Aerith. Você
deve estar nessa forma porque ainda tem algo a fazer. Tenho medo que nossas
memórias de pecado a atrapalhem.”
“Não...”
“Se isso acontecer, nós sofreremos ainda mais. Então vá,
por favor.”
Jessie estava mentindo. Aerith sabia que ela estava tentando afastá-la
para que ela não precisasse dividir essa dor. Os fantasmas de três
pessoas estavam desaparecendo. Aerith segurava os lábios enquanto as
lágrimas caíam.
“Por favor, deixem-me dizer pelo menos uma coisa. Naquele dia, muitas
pessoas conseguiram escapar porque vocês trabalharam duro para proteger
o pilar do Setor 7. Tenho certeza de que o número de sobreviventes foi
muito maior que o de mortos do Setor 1... E eu também consegui salvar
Marlene por causa disso. Talvez isso não seja o bastante para libertá-los,
mas eu sei que as vidas das pessoas não são algo que você
deve somar ou subtrair para analisar sua existência... Por favor lembrem
que não são apenas pecados que vocês carregam.”
“...Obrigada, Aerith. Obrigada.”
A voz de alguém que já não sabia mais quem era ecoou, e
eles foram levados de volta à prisão que eles próprios
escolheram, afundando no mar de memórias.
Aerith limpou as lágrimas e começou a andar de novo. Ela rezava
para que as almas dos guerreiros da Avalanche pudessem descansar em paz em breve.
Capítulo 3
Aerith
não sabia quanto tempo havia se passado na superfície. Já
havia se passado dias desde que ela encontrou Jessie e os outros. Ou será
que foi há alguns instantes atrás?
Ela imaginava se a dor deles poderia ser curada. Enquanto se fazia esta pergunta,
Aerith continuava vagando pelo mundo. Ela caminhava no Lifestream, no mar de
Mako do Planeta.
Quando viu o próximo fantasma, perdeu a respiração por
um momento.
A ponta de um tubo de aço surgia em meio a uma luz fraca. Quando Aerith
percebeu que era uma mão artificial ligada a um braço, pensou
que Barret também havia deixado o mundo dos vivos. O coração
de Aerith bateu ainda mais forte quando pensou em Marlene, que escapou de Midgar
com sua mãe Elmyra.
“Marlene!”
As ondas de pensamento de Aerith se expandiram e alcançaram o fantasma.
A figura completa de um homem com uma arma ligada ao braço surgiu no
Mako. A arma emitia um brilho frio, mas estava no braço esquerdo. A arma
era temível como se fosse fisicamente real, e a figura frágil
do homem reluzia em vermelho.
“Você é...”
“Uma mulher... Onde eu a vi antes? Você até sabe o nome de
Marlene.”
“Nós já nos conhecemos, não é, senhor Dyne?”
Ele era Dyne, o governador da Prisão Corel, uma terra de exilados cheia
de areia e lixo. Ele também já foi o melhor amigo de Barret. Depois
do que a Shin-ra fez com sua cidade natal, seu desespero tirou sua sanidade
e, num estado de loucura, ele matou muitas pessoas.
“Ah, entendo. Você é a garota que estava com Barret. Então
isso deve significar que você está morta também. Mas que
pena.”
Não conseguindo acreditar no que via, Dyne riu.
“Não consigo acreditar que depois de matar tantas pessoas, eu acabei
vindo parar no mesmo lugar que uma garota inocente como você. Este mundo
realmente é um absurdo. Que coisa chata esse Planeta é. Tudo realmente
deveria ser destruído.”
“Você vai continuar dizendo isso?”
A figura de Aerith ficava em contraste com a de Dyne. Ela levantou as sobrancelhas.
“Embora você realmente ame Marlene?”
“Quem liga? Garota, você...”
“Eu sou Aerith.”
“Heheh... Você é forte. Meu braço esquerdo é
tudo que resta da minha vida passada. Tudo bem. Chamarei você por esse
nome. Você ouviu o que eu falei daquela vez, não? As palavras que
troquei com Barret. Quando eu estava tentando destruir tudo, eu pretendia trazer
Marlene aqui comigo também.”
“Você está mentindo. Era apenas um blefe.”
“Eu não posso mentir aqui, certo? Eu estava seriamente pensando
nisso naquela época. Então eu desafiei Barret a um duelo e fui
iluminado.”
Por um tempo, Dyne riu de como ele teve de pagar por tudo com seu braço
direito e seu corpo.
“E eu agradeço a Barret por isso. Afinal, eu fui esmagado pelo
‘mundo’ que tentei destruir. Eu não queria acabar com a minha
própria vida. E então, eu usei todas aquelas pessoas inúteis
que viviam amedrontadas na terra do exílio, libertando-as e tornando-as
felizes.”
“...”
“Você entende agora, Aerith? Diante de você está a
aparição inútil e despedaçada de um homem que nem
mesmo o Planeta aceitou. O Planeta ao qual minha esposa Eleanor já retornou.
E eu já confiei Marlene a Barret. O que quer que aconteça ao Planeta
agora não me interessa mais.”
“...”
Vendo como Aerith ficou em silêncio, ele riu mais uma vez de como conseguiu
amedrontar a garotinha. Então ele percebeu que não era engraçado
e que Aerith não tirava os olhos dele. Ele percebeu que não conseguiu
amedrontá-la nem um pouco na verdade. Havia um brilho em seus olhos verde-esmeralda
que fazia a loucura dele se acalmar.
“...Você não tem coragem.”
“O que você disse?”
“Posso repetir: você não tem coragem. Você não
tem coragem de voltar e começar de novo. Você só esteve
fazendo o que é mais fácil para você.”
Enquanto Aerith encarava Dyne, deu um passo para frente. Sob a pressão
de seus poderosos olhos, ele escondeu o rosto com sua arma e inconscientemente
deu um passo para trás.
“Barret também trocou um de seus braços por uma arma. Ele
jurou destruir a Shin-ra com seus sentimentos de ódio e remorso. É
por isso que as mãos dele também estavam sujas com o sangue de
muitas pessoas. Mas ele não se abalou. Além de aceitar o fardo,
ele está realmente tentando salvar o Planeta desta vez. Ele está
tentando proteger o mundo no qual Marlene viverá sem fugir.”
“...A capacidade de mudar desse jeito é a única habilidade
daquele provinciano.”
“Barret é especial e você é diferente?”
Dyne balançou com essa pergunta. Ele estava acordando da loucura. Era
a coisa que ele mais odiava... Ele ficou todo esse tempo num estado de loucura
para tentar esquecer de si mesmo, mas o olhar fixo de Aerith espalhou a névoa
de loucura que o cercava. A armadura em volta de seu coração se
partiu.
“Eu
sinto o sangue daqueles que matei com minhas próprias mãos nas
profundezas da minha alma. Você não vê? Eles tentam me consumir
o tempo todo. Se eu voltar, não sobreviverei.”
A figura avermelhada que circundava a figura de Dyne de repente mudou para uma
figura sólida. Nos quatro anos que se passaram desde que Corel foi destruída,
ele não se importou com a quantidade de ódio que acumulou com
seu braço esquerdo de metal, e agora estava coberto de sangue. Foi o
fardo do pecado que fez Dyne desistir.
“Como eu posso começar de novo? Tudo que eu podia fazer era continuar
nesse estado. Tudo que eu podia fazer era odiar tudo e continuar na loucura!
Eu estava enganado?”
“Você está enganado.”
Ela não usou a coerção, mas ao invés disso, se aproximou
de Dyne gentilmente. Estendendo suas mãos, tocou a camada de sangue que
o cobria.
“O sangue que o cerca é algo que o seu sentimento de culpa está
criando. As vidas que você tirou retornaram ao Lifestream há muito
tempo. Você não pode esquecer o que você fez, mas não
há motivo para não começar de novo. Eu garanto.”
“...”
A partir do ponto que Aerith tocou, o sangue começou a secar, separando-se
de Dyne cada vez mais. Então, o braço esquerdo de Dyne começou
a desaparecer.
“...Eu poderei retornar ao Planeta algum dia?”
“Tenho certeza que sim.”
“Quando Marlene chegar ao fim de sua vida e vier aqui, eu poderei sair
e recebê-la como parte do Planeta...?”
Aerith olhou para o rosto de Dyne e deu um sorriso.
“Você está começando de novo. Vai dar tudo certo.”
O rosto obscuro de Dyne agora podia ser visto claramente. Era diferente da pessoa
que ela conheceu na Prisão de Corel. Era o rosto verdadeiro de alguém
que amava sua família e cidade natal mais do que qualquer um.
Ele não poderia mais retornar aos tempos pacíficos de quando trabalhava
nas minas de Corel antes da tragédia. Tanto Dyne quanto Aerith sabiam
disso. Mesmo assim, os corações das pessoas podem ser reconstruídos.
Elas se levantam e enfrentam essas memórias dolorosas. Se isso não
acontecesse, então o mundo já seria um absurdo.
“O que posso fazer nesse mar de Mako? Não, o que eu devo fazer...?
Eu continuarei pensando naqueles que matei por um tempo. Até que um dia
eu possa me unir ao Planeta.”
“Sim, acho que é uma boa idéia.”
“Aerith, me perdoe pela maneira como a tratei. Estou feliz por tê-la
conhecido.”
“Você não me tratou mal na verdade.”
“Você realmente é uma pessoa incrível.”
Pela primeira vez, Dyne sorriu do fundo do coração, e lentamente,
sua imagem desapareceu. A ponta da arma de seu braço esquerdo também
sumiu.
“Após morrer e passar por tudo isso, finalmente eu posso parar
de virar minhas costas contra Barret e Marlene. Deixe-me agradecer...”
Pouco antes de ele desaparecer no Lifestream, Aerith viu. Ela viu partículas
de Mako indo em direção a Dyne e se agarrando a ele como se tivessem
vontade própria. A voz fraca de Dyne ainda podia ser ouvida.
“Eleanor?”
E então, Aerith voltou à sua jornada.
Capítulo 4
Até
agora, Aerith pensava que o Lifestream não tinha cheiro.
A maneira como sua alma percebeu foi meio que usando cinco sentidos espirituais:
ouvindo as memórias remanescentes em volta dela e percebendo a energia
em forma de imagens. É verdade que ela podia tocar as coisas neste mundo
também, mas pode-se dizer que era apenas uma extensão da visão.
Não havia necessidade clara de comer, não havia paladar. Ela apenas
sabia que seu sentido de olfato estava funcionando, embora realmente não
houvesse cheiro algum. Mesmo o sangue que cobria Dyne era apenas simbólico,
então não havia cheiro nesse mundo. Aerith pensou brevemente como
era triste que mesmo as flores não teriam perfume aqui.
Ela encontrou outra alma.
Tinha o cheiro de algo podre. Era como se não estivesse totalmente decomposto
ainda, espalhando um cheiro desagradável. É o tipo de cheiro que
faz uma pessoa sentir náuseas.
Era o único ponto em que o Mako estava fraco. Era uma região em
que o Mako era distorcido e evitava, incapaz de se formar naquela região
específica. Um homem velho estava lá.
“Bem, bem... Este é um rosto do qual me lembro.”
Como em sua vida passada, o homem vestia uma roupa cara feita especialmente
sob medida. Olhando melhor, Aerith pôde perceber que ele também
mantinha uma imagem quase tão sólida quanto a dela. Mas as únicas
coisas claras eram suas roupas caras, sapatos e ornamentos. Seu rosto estava
muito distorcido. Ele era baixo, possuía bigode e uma voz típica
de uma pessoa velha.
“O seu nome é... Não importa. Você é a garota
que tem o sangue dos Ancients correndo em suas veias, estou certo?”
“Isso não importa.”
Aerith realmente não tinha intenção de revelar seu nome.
A pessoa diante dela era o antigo líder da Corporação Shin-ra,
Presidente Shin-ra, a autoridade absoluta de uma corporação que
ultrapassou o poder das nações.
“Entendo. Então, você veio até aqui também.
Está morta como eu? No mesmo lugar que eu?”
O presidente era incapaz de esconder o contentamento com seu tom de voz.
“Nos encontramos no final como se fôssemos mandados para outra vida
juntos. O Planeta realmente sabe como fazer surpresas. Sinto que ganhei algo
com tudo isso.”
“Ganhou algo?”
Significava a mesma coisa que Dyne disse no início. Mas no caso de Dyne,
era mais cinismo quanto a si próprio. Esse homem era completamente diferente.
Aerith sentia que o Presidente Shin-ra estava realmente pensando no que estava
falando.
“Você não entende, não é? Os Ancients são
mais estúpidos do que eu pensava. Bem, é por isso que você
se recusou a cooperar com a Shin-ra afinal. Ora, ora, mas que vida miserável
e patética.”
“Que rude. Não me lembro de ser nada disso.”
O presidente riu de Aerith, como se quisesse mesmo apenas irritá-la.
“Não conhecer os ganhos e perdas de alguém é uma
vantagem relativa. Mas pense bem em tudo isso. Após escapar de Hojo junto
com sua mãe, sua vida foi jogada nos subúrbios sujos por quinze
anos. Quando os Turks encontraram você, você poderia ter vivido
uma vida luxuosa nos setores ricos acima do prato se quisesse. Naquela época,
Hojo estava sonhando com alguma outra experiência e então eu dei
as instruções de ficarem de olho em você. Mas se você
tomasse a iniciativa de cooperar conosco, então eu a teria recebido calorosamente
e a daria tratamento especial. Então o que você acha agora? Após
viver nos subúrbios, viver como um inseto, se envolver com a Avalanche
e morrer sem saber o que é o luxo, você ainda pode dizer que sua
vida não foi patética?”
“...Esse é um ponto de vista realmente complexo, pesando o quão
felizes uns e outros são pelo seu dinheiro.”
“Eu sou uma pessoa prática. Se você analisar friamente, tenho
certeza de que não encontrará outro humano que tenha lucrado tanto
quanto eu.”
Um sorriso surgiu no rosto do presidente enquanto ele falava.
“Com minha visão sistêmica, eu consegui expandir a Shin-ra,
uma companhia que começou do nada produzindo armas, até o tamanho
que ela tem hoje. Descobrir as possibilidades dos usos de energia Mako e desenvolver
os reatores que absorvem energia foi o ponto crucial. A energia Mako facilitou
a vida das pessoas, aumentando sua satisfação e tornando-as minhas
escravas. Após colocar as mãos numa vida tão conveniente,
isso tornou-se viciante como uma droga para as pessoas mais ignorantes e passou
a controlar suas mentes. E nós, a Shin-ra, que controlávamos essa
energia, expandimos a escala de nossa companhia num instante. Com táticas
simples, conseguimos reunir todos os talentos que queríamos. Sonhos de
planejar a construção de uma metrópole, um programa de
exploração espacial... Eles fariam tudo isso por mim. Eu podia
usá-los. Eles me serviam como a um rei. O público não conseguia
ver o que estava acontecendo. Mesmo a mídia, que controlava o público,
era controlada por nós, que monopolizamos a energia Mako. Shin-ra simplesmente
dominou o país e eu ascendi a um trono no qual ninguém me criticaria,
não importando o que eu fizesse. Eu controlava todos os idiotas, tinha
um poder ilimitado e regia o mundo todo! Eu não me importaria de ter
uma vida mais longa, mas tudo bem. Então, o que você acha, Ancient?
Você entende qual de nós dois ganhou mais em vida? Ou melhor, entende
como a sua vida foi patética?”
“Hmmm... Talvez?”
O que Aerith entendeu é que a felicidade do homem diante dela era muito
diferente do que ela estava pensando. A felicidade da qual ele falava era apenas
de coisas relativas. Ele queria estar numa posição onde tivesse
mais lucros que qualquer um. Como resultado disso, as idéias da Shin-ra
de absorver a vida do Planeta permaneciam com ele até mesmo agora. Ele
era como uma alma indefesa que não conseguia mais sentir felicidade,
enquanto aqueles que foram menos afortunados que ele conseguiam.
Ela não tinha intenção de falar tudo isso. Se esse era
o ponto final da satisfação dele, então não havia
nada a ser feito. Ele não conseguia se desprender do dinheiro que conquistou
e sua podridão começou a exalar aquele mau cheiro. Como se estivesse
preso no vazio, o infeliz Presidente Shin-ra não sabia que havia se libertado
de suas ambições após morrer.
Sempre procurando alguém com quem se comparar, o Presidente estava irritado
com a falta de resposta de Aerith.
“Foi tão idiota de minha parte me comparar a uma humana tão
estúpida. Não estou de bom humor. Estou muito irritado. Saia daqui
rápido se não entende o que estou dizendo.”
“Eu farei isso.”
Esse homem não podia ser salvo. No trono onde seus desejos apodreciam,
ele iria permanecer lá até o fim de seus longos dias e seu ego
desaparecesse.
Quando Aerith deu as costas para o Presidente Shin-ra e estava prestes a recomeçar
sua jornada...
Algo estranho aconteceu. Uma outra onda, separada do Lifestream, atravessou
o mar de Mako violentamente. Era uma onda ameaçadora, como uma grande
pulsação.
“O que é isso?!?”
Ouvindo os gritos do velho, Aerith se virou de volta.
Tudo que ela pôde ver foi a figura do Presidente sendo levada pela distância.
Gradualmente, a velocidade aumentou a um nível extremamente rápido.
Ele não estava numa corrente. O velho era puxado por uma força
semelhante à da gravidade, pegando mais velocidade a cada segundo. Ele
estava indo a algum lugar no mar de Mako, à força.
Deixando um longo grito de medo para trás, o Presidente Shin-ra desapareceu.
Aerith sentiu a pulsação de novo. Ela sabia claramente o que era
desta vez. Era a mesma pulsação que acabou com sua vida na Cidade
Esquecida.
Aquele homem estava em algum lugar no Lifestream.
“Sephiroth...”
O anjo caído de cabelos prateados sorriu friamente, como se levasse as
almas condenadas para o inferno. Desta vez, Aerith sabia que o perigo não
estava acabado.
A magia branca definitiva, Luz, que ela evocou, estava sendo contida quando
estava prestes a funcionar. A antiga cicatriz do Planeta... Sephiroth estava
na Cratera do Norte, a “Terra Prometida” de Jenova, esperando pelo
momento de renascer como uma nova entidade.
A magia negra de destruição definitiva, Meteoro, estava em andamento.
O martelo demoníaco que desceria dos céus distantes para esmagar
o Planeta foi evocado.
Capítulo 5
Cloud
estava caindo no Lifestream.
Ele não estava caindo como se estivesse morto. Ele estava caindo no mar
de Mako vivo, com seu corpo material. Ele estava a caminho da morte.
Na Cratera do Norte, ele descobriu que suas memórias eram falsas. Ele
era apenas uma marionete para a qual o insano cientista Hojo transplantou células
de Jenova. Um ser criado para se fundir com Sephiroth para sua ressurreição.
Mas como uma falha, ele era um clone inferior que sequer recebeu um número.
Ele foi jogado para fora de Midgar como lixo. E então ele conheceu Tifa.
Ele conheceu “sua” amiga de infância, Tifa Lockhart. Naquela
época, com o poder de Jenova de copiar memórias, as lembranças
que Tifa tinha de Cloud foram instantaneamente transferidas para ele. As partes
que faltavam foram preenchidas com suas próprias lembranças de
ser um Soldier, para completar tudo. Foi assim que a personalidade conturbada
de Cloud Strife, baseada no jovem que existia na mente de Tifa, nasceu. Enquanto
esse “Cloud” tinha muitas contradições quanto a si
mesmo, ele construiu um personagem fictício para que não duvidasse
mais de si mesmo. Esse personagem era ele mesmo.
Porém, o disfarce estava para acabar.
Ele começou a falhar já algum tempo. Após entrar em contato
com muitos clones de Sephiroth, a ressonância dentro da mente de Cloud
criou muitas suspeitas. Muito antes da morte de Aerith, a personalidade que
ele construiu, escondendo suas suspeitas, começou a se partir. Usando
o ódio que ele nutria por Sephiroth e os objetivos que tinha em mente,
ele de alguma forma conseguiu se manter, mas isso só durou até
encontrar o verdadeiro Sephiroth.
Na Cratera do Norte, diante de Sephiroth, que tinha Jenova em sua posse, o personagem
Cloud caiu. Logo depois disso, até sua consciência ficou sob controle
de Sephiroth, já que o próprio Cloud o entregou a chave para evocar
Meteoro, a Materia Negra.
Cooperando com o inimigo que ele odiava e sendo capaz de se voltar contra seu
próprio objetivo de deter o Meteoro, Cloud entrou em colapso. Seu falso
ego mosaico se partiu em pedaços e em sua consciência vazia, apenas
o desespero de como ele não era nada mais que um clone falho de Sephiroth
permaneceu.
E assim...
Agora não tendo mais nenhuma utilidade, Cloud caiu no Planeta através
da Cratera do Norte, abandonado no Lifestream.
Com seu ego perdido, o que iria acontecer se a energia Mako altamente concentrada,
contendo as memórias agregadas do Planeta, entrasse em seu sistema?
Ele era igual a uma esponja seca mergulhada num líquido. Sua consciência
em branco e inúmeras memórias sem sentido iam ser enterradas.
Esse estado, no qual a pessoa fica extremamente intoxicada, é comumente
chamado de “envenenamento por Mako”.
Com sua mente sendo infligida além do ponto de recuperação,
Cloud flutuava no Lifestream. Logo, seu corpo vivo que não deveria estar
no Lifestream, foi lançado por um dos gêiseres naturais de Mako
da costa de Mideel. Com sua personalidade perdida, ele agora era uma pessoa
vazia em confusão.
Aerith
sabia uma das razões de haver um lugar do qual o Lifestream não
podia se aproximar. Esse lugar tinha uma barreira que Sephiroth colocou. O desastre
que caiu do céu, Jenova, trouxe consigo um meteoro que criou uma enorme
cicatriz no Planeta devido a seu impacto. Agora esse lugar, onde muita energia
era reunida para curar a ferida, havia se tornado o palco da ressurreição
de Sephiroth. Os fluxos de vida de todo o lugar eram sugados pelo vórtice
artificial, impedindo uma entidade desencarnada, como Aerith, de se aproximar.
Aerith queria muito falar com Cloud quando seu corpo caiu no vórtice.
Ela tentou muitas vezes, enquanto o corpo dele era carregado para Mideel. Mas
com sua mente despedaçada e coberto de desespero, Cloud não conseguia
ouvir a voz de Aerith. Não importava o quanto ela tentasse, sua voz não
chegava até Cloud.
Sem poder fazer nada, Aerith viu o corpo de Cloud retornar à superfície.
“Como
eu posso salvar Cloud? Como posso deter o Meteoro? Eu nunca imaginei que Luz
seria contida. Se continuar assim, o Planeta vai acabar como Sephiroth quer...
O que eu posso fazer? Me diga, Cloud...”
Aerith chorava enquanto pensava no estado de Cloud, que nem mesmo suas orações
alcançavam. Sua personalidade partida não poderia mais ser encontrada.
Se ele não era Cloud em primeiro lugar, então quem era ele? Conhecendo-o
apenas como um ex-membro da Soldier, não havia como ela saber. Ela mergulhou
num sentimento de inutilidade que não conseguia descrever.
“Cloud... Sinto sua falta. Eu quero o verdadeiro você...”
Seus murmúrios e pensamentos se expandiram em ondas e se espalharam pelo
Mako.
Suas memórias junto a Cloud vieram à mente outra vez. Sua impressão
é que embora ele não fosse muito social, havia algo que encantava
nele.
“Eu senti algo estranho nele, mas tudo foi mesmo apenas inventado, parte
de uma personalidade falsa? Cloud não era real em nada? ...Não,
isso não pode ser verdade. Havia coisas que somente Cloud pensaria. Coisas
que ele fez porque era Cloud. Ele nunca foi uma casca vazia para começar!”
Mas ela não podia descobrir a verdade sozinha. Seus pensamentos apenas
davam voltas. Aerith mergulhou em suas memórias mais uma vez. Memórias
que mostravam a individualidade de Cloud. A maneira como ele andava, falava...
Ela remontou suas ações uma a uma...
Esses pensamentos começaram a se fundir no mar de Mako e despertaram
alguém. Essa “pessoa” reconheceu as imagens que Aerith mentalizava
e despertou.
“Aerith... É você?”
No início, Aerith não se lembrou de quem era a voz, porque foi
muito repentino. Em pânico, ela se virou e viu um rosto nostálgico
que não via há cinco anos. Ele foi o primeiro amor dela. Ele agora
era um amigo muito querido que ela não via desde que ele desapareceu
sem deixar vestígios. Ele tinha as mesmas características que
ela viu em Cloud. Zack, que tinha os olhos azuis da Soldier, apareceu diante
dela. Ele tinha uma imagem inferior à imagem sólida de Aerith.
“Zack! Isso quer dizer que você está morto também?”
Embora Aerith normalmente não fizesse perguntas tão óbvias,
foi a primeira coisa que veio a sua mente e ela falou quase que num reflexo.
Além disso, era estranho que um Soldier tão habilidoso e experiente
morreria. Apesar dela não ter idéia do paradeiro de Zack, ela
tinha certeza de que ele estava a salvo e vivendo tranquilamente em algum lugar...
Ela se culpou por acreditar cegamente nisso. Essa realidade cruel foi um choque
forte para ela.
“’Você também?’ ... Isso quer dizer que você
está morta também, Aerith? Bem, eu ia dizer a mesma coisa mesmo
e então... Como devo dizer... Meus pêsames?”
“Você não mudou nada.”
Não importava o que acontecesse, Zack nunca perdia o bom humor. Como
se fosse salva por essa personalidade ativa, Aerith sorriu fracamente. Apesar
de ela saber que ele era parte da Soldier da Shin-ra, era essa parte dele que
a atraía.
“Muitas coisas aconteceram. Coisas terríveis. Tudo começou
quando fui enviado numa missão à cidade rural de Nibelheim."
“Nibelheim?”
“Sim, você conhece? Naquela época, eu estava junto com um
Soldier muito famoso que era conhecido como herói. Ele de repente ficou
louco e...”
“Você fala de Sephiroth, não é?”
Aerith respirou mais forte. Ela acreditava que havia um significado para Zack
aparecer. Ela tinha um sentimento de que ele estava ligado a tudo.
“Aquele maldito é mesmo famoso. Ou é porque você leu
sobre o grande massacre de Nibelheim nos jornais?”
“Você estava lá na época, Zack? Então e quanto
a Cloud?”
“Ei, ei, espere aí! Como você sabe sobre Cloud também?
Ele está bem!?”
“Eu conheço Cloud também. Realmente existe um Cloud, não
existe?”
Os dois rapidamente trocaram o que sabiam. E então Aerith soube. Ela
soube que Cloud não era apenas um boneco feito para Sephiroth. Ela também
entendeu porque ela viu Zack nele.
Zack também soube. Soube a situação em que seu grande amigo
se encontrava. O amigo que se envolveu com ele no incidente e foi caçado
pela Shin-ra. Ele também soube que Sephiroth ia ser ressuscitado e se
tornaria uma ameaça não só a Nibelheim, mas a todo o Planeta.
“Zack... O que eu devo fazer para que Cloud descubra a verdade sobre si
mesmo? Você pode dizê-lo que ele é real?”
“É impossível para nós fazer isso. A única
que pode fazer isso é aquela garota que estava conosco em Nibelheim,
Tifa. Se as lembranças dela puderem despertar as de Cloud, então...”
“Isso vai ser difícil. Mas não desistirei. Tenho certeza
de que há uma chance.”
O rosto de Aerith se encheu de brilho agora que havia uma esperança.
“Quando isso terminar, Cloud e os outros poderão fazer algo quanto
a Sephiroth. Eles poderão remover o obstáculo que está
consumindo Luz.”
E logo, a oportunidade veio.
Sob
a pressão da aproximação do meteoro, o Planeta despertou
suas armas de defesa massivas, os Weapons, e o fluxo de Lifestream foi interrompido
por suas atividades. A quantidade de energia que era liberada na superfície
nunca foi vista antes. Acontecendo também em Mideel, Cloud, que estava
pacificamente descansando lá com Tifa cuidando dele, ambos caíram
no Lifestream.
Ambos foram engolidos pelo Mako ao cair no Planeta. Para Cloud, era a segunda
vez, mas para Tifa, era sua primeira experiência.
Aerith arriscou tudo que tinha nessa oportunidade de ouro.
Ela desesperadamente tentou falar com Tifa, que estava prestes a ser intoxicada
pelo Mako altamente concentrado. Guiando sua consciência, ela a guiou
ao coração fechado de Cloud.
Na verdade, Aerith queria fazer isso sozinha. Mas ela não podia. Foi
por isso que ela confiou tudo a Tifa. Ela entregou a Tifa todos os sentimentos
que ela nutria por Cloud. Ela os entregou àquela que iria “viver”
com Cloud...
E então, Tifa conseguiu. Reunindo suas próprias lembranças
com as de Cloud, ela procurou as coisas que apenas o verdadeiro Cloud poderia
saber. E enfim, a porta fechada foi aberta... Naquela época, o poder
de Jenova que foi implantado em Cloud copiou as características de seu
amigo próximo, Zack. Procurando as memórias mais profundas que
estavam misturadas em tudo isso, Tifa conseguiu reconstruir o verdadeiro Cloud,
ao invés da pessoa falsa que ele criou para se proteger.
“Você conseguiu, Tifa. Obrigada... Sinto um pouco de inveja de você,
mas... Cuide de Cloud por mim. Cuide de Cloud e do mundo...”
Tifa abraçou Cloud fortemente quando ele voltou aos sentidos. Aerith
observou os dois retornarem à superfície sorrindo como uma mãe
afetuosa.
Era uma visão deslumbrante para Zack.
“Puxa, isso é incrível, Aerith. De todas as garotas que
conheci, você realmente é a melhor. Depois daquela missão,
nós poderíamos ter continuado como estávamos e eventualmente
nos casaríamos. Teríamos uma vida feliz e pacífica depois
que eu voltasse para casa. Eu odeio Sephiroth. E odeio a Shin-ra, que esteve
escondendo tudo que fizeram.”
“Alguém que ‘conheceu’ tantas garotas nunca poderia
ser um bom marido.”
“Que cruel. Eu sou muito respeitoso.”
“E esse é o seu defeito. Você não é simplista
e objetivo como Cloud.”
“Era isso que você gostava, Aerith?”
“Quem sabe...? As coisas podem ter mudado depois de cinco anos.”
“Heh.”
Zack fez um rosto de tristeza falso, e então sorriu levemente. Era o
mesmo sorriso idêntico de quando ele e Aerith se conheceram há
muito tempo. Quando ela tinha dezessete anos, foi isso que a atraiu nele.
“Não acabou ainda, mas eu vou dormir por um tempo. Parece que não
há nada que eu possa fazer por enquanto. Mas sempre que se sentir sozinha,
me chame, Aerith.”
“Só se eu me sentir muito sozinha. Boa noite, Zack.”
E o Soldier de Primeira Classe desapareceu no Mako. Acreditando que sua missão
não estava acabada ainda, Zack decidiu se ocultar para poupar energia.
Aerith, por outro lado, não ia dormir. Sendo uma Cetra, não se
sentia nem um pouco cansada.
Ela estava feliz. Estava feliz de saber que agora o verdadeiro Cloud podia cuidar
de si mesmo, embora fosse apenas por um curto tempo.
Capítulo 6
“Hahaha...”
Aerith parou de caminhar quando ouviu a risada que lhe deu calafrios.
Mesmo enquanto Cloud e os outros lutavam para encontrar uma maneira de entrar
na Cratera do Norte pela superfície, ela continuou a vagar pelo Lifestream,
tentando encontrar alguma fraqueza na barreira de Sephiroth ou alguma abertura
que a permitisse libertar a contida Luz. Mas ela não encontrou. Tendo
absorvido completamente os poderes de Jenova, Sephiroth estava firmemente protegendo
a cratera que iria se tornar seu casulo, especialmente de qualquer forma de
aproximação pelo Lifestream. Fazendo isso, ele podia evitar a
fúria do Planeta, que esteve contra Jenova todos esses anos, e se esconder
dos olhos dos Weapons que nasceram para expurgar todos os males do Planeta.
“Se Luz não funcionou a tempo, então...” Quando Aerith
começou a pensar na situação, a risada ecoou de novo.
Uma nova alma havia acabado de cair no mar de Mako. Era um homem velho em roupa
de laboratório com o rosto cheio de veias nervosas e uma risada deturpadora:
originalmente sob a autoridade da Shin-ra, ele era um cientista louco que fazia
experiências anti-éticas em humanos constantemente. Hojo lentamente
voltou sua atenção para Aerith.
“Professor Hojo...”
“Ah, a filha dos Ancients. Entendo. Enquanto os Cetra quiserem, podem
viver no Lifestream sem perder sua consciência. Eles só perdem
sua habilidade de serem humanos... Hahaha, igualzinho a Jenova e Sephiroth,
podemos ver.”
“Não me compare a eles. E você ainda não lembra o
meu nome.”
“Isso não importa. É muito mais apropriado chamá-la
de ‘a última Ancient’ do que qualquer outro nome, já
que este reflete sua verdadeira natureza única. Oh sim, sua diferença
em meus laboratórios, com meu sistema de numeração, teria
sido o suficiente para distingui-la.
“Os humanos e todas as coisas vivas são apenas cobaias potenciais
para você? Você ainda não consegue mudar apesar de estar
livre aqui como uma alma?
“Hahaha... Kyahaha!”
Como se tivessem contado uma piada engraçada, Hojo riu alto, como se
estivesse possuído.
“...Heehee, heeheehee. Não, eu mudei. Eu mudei muito antes de cair
nesse Lifestream. Você não entende, não é? Ah, essa
roupa de laboratório está no caminho
Hojo tirou o jaleco e o dobrou vagarosamente. A imagem de seu jaleco se partiu
em milhares de fragmentos, voando aleatoriamente como penas, expondo o corpo
de carne que estava escondido sob ele.
“...!”
Aerith engasgou. O corpo diante dela não era humano, mas sim composto
de células de Jenova, algo que ela já teve o desprazer de ver
muitas vezes. Hojo se cansou de fazer experiências nos corpos dos outros
e acabou usando a si próprio como cobaia para suas experiências
insanas.
“Heeheehee. Em outras palavras, não sou diferente de um exemplar
agora. Mesmo você nunca imaginou que tanto assim havia mudado, não?”
“O que você fez...? Você desistiu de sua humanidade, Professor
Hojo? Você violou sua alma tanto que nunca poderá retornar ao Planeta...”
“Lifestream... O ciclo da vida... A vontade do Planeta... Nada disso é
mais importante que meus desejos para mim. O que é realmente importante
para mim é descobrir até onde a ciência pode ir superando
a natureza e o sistema do Planeta. Se eu puder satisfazer minhas ambições
supremas e curiosidade insaciável, então não terei remorso
de perder minha humanidade. Não me importa o que acontecerá ao
Planeta enquanto eu puder provar minhas teorias sobre Jenova!”
Os pensamentos que Hojo emitia eram pura loucura e não eram como a loucura
da qual Dyne precisava ser salvo. Ao contrário das ambições
do Presidente Shin-ra, o ponto final de seus objetivos era certa destruição.
Hojo era como um cadáver vivo. Ele havia se tornado um escravo do conhecimento,
possuído por sua própria loucura por ciência, sem pensar
na vida ou no futuro.
“Agora essas provas que tenho superaram Gast, que era reconhecido por
seu talento, mesmo que tentasse fugir da ciência como o covarde que ele
era. Se Gast estivesse à frente do Projeto Jenova agora, ele certamente
nunca teria chegado a esse estágio... Haha, sim. Professor Gast era seu
pai, não é mesmo?”
“...Meu pai entendeu que o Planeta era mais importante que a ciência.”
Aerith descobriu quando as memórias de Tifa e Cloud se fundiram com o
Lifestream quando eles caíram. Ela também descobriu que foi Hojo
quem matou seu pai quando ele tentou levar Aerith, recém-nascida, para
ser usada como cobaia.
“Ha, esse foi o fim de Gast. Parar e não fazer o que devia ser
feito foi uma blasfêmia para a ciência... Heh, é hora de
nossa conversa acabar.”
Sem mostrar o menor sinal de culpa, Hojo se voltou na direção
da Cratera do Norte.
“Meu filho, o herdeiro de Jenova, está chamando. Ele está
pedindo mais energia vital. Hahaha, eu me oferecerei. Então ele se tornará
um comigo, aquele que ele mais odiava e desprezava. Essa será a nossa
reunião.”
Hojo, que havia se fundido com Jenova, foi arrastado como Presidente Shin-ra
daquela vez. Rindo verdadeiramente em sua loucura, ele foi sugado para o fundo
do poço de gravidade.
“Deixe-me dar um último conselho, Ancient. Não importa o
que você faça, é inútil. É tudo parte do sistema
desse Planeta. Muitas entidades desconhecidas caem do céu no ciclo de
vida do Planeta sem saber e agora Jenova está lá. Então
para onde vai o espírito? Mesmo que você tente destruí-lo,
ele nunca desaparecerá. Ele se fundiu com o mar de Mako, acessando todas
as partes do Planeta pelo Lifestream. Um dia, você terá que viver
como parte de Jenova. Hahaha... É apenas uma questão de tempo.”
“Eu nunca deixarei isso acontecer!”
“Você também entenderá algum dia. Hahahahaha...!”
Deixando para trás apenas sua risada insana, a coisa que uma vez foi
Hojo desapareceu. E então ele se tornou um sacrifício para Sephiroth
com uma expressão cheia de felicidade e loucura. Até o último
momento antes de sua alma desaparecer, ele não mostrou remorso ou vergonha.
Aerith sabia que a morte de Hojo significava o fim da Shin-ra. Nesse caso, a
batalha decisiva de Cloud estava se aproximando.
Ela começou a correr. Se Hojo podia se sacrificar para ajudar Sephiroth,
então devia haver alguma coisa que ela podia fazer para salvar o Planeta.
Era nisso que ela acreditava.
Capítulo 7
Cloud
e seus companheiros derrotaram Sephiroth.
Afundando na cicatriz do Planeta e absorvendo a energia Mako, o Sephiroth original
foi revivido e seus ferimentos totalmente curados. Na batalha que se desenrolou
depois, o desejo que ele herdou de Jenova, suas próprias ambições
e suas fortes convicções lhe deram um enorme poder, mas os humanos
ainda conseguiram superá-lo no final. O corpo físico de Sephiroth
foi destruído e, cheio de ferimentos, ele recuou.
Mas apenas Cloud sabia disso. Tendo sido exposto às células de
Jenova, havia traços da consciência de Sephiroth nele. Parte de
sua consciência estava em sintonia. Cloud podia sentir a existência
de seu alter-ego em algum lugar do Lifestream, continuando a obstruir Luz mesmo
agora.
Deixando apenas sua mente entrar no mar de Mako, Cloud seguiu em busca dele.
Atravessando as correntes, seu velho inimigo estava esperando por ele. A alma
de Sephiroth não havia sido destruída ainda e ainda era uma ameaça
ao Planeta.
No mundo de energia consciente, suas espadas colidiram. Sephiroth, o Soldier
mais poderoso e a pessoa mais admirada, atravessou Cloud com sua espada como
um raio de luz. Mas Cloud não tinha medo. Acreditando ter vencido, Sephiroth
levantou sua espada longa para seu próximo ataque e nesse instante, Cloud
o atacou com toda a força que tinha. Sua grande espada atravessou o corpo
de Sephiroth naquele breve instante. Seu ataque abriu outra oportunidade para
ele, que atacou Sephiroth mais uma vez. Foi uma tempestade de ataques: quinze
ataques sucessivos atravessaram Sephiroth.
O anjo caído sorriu. Mas o dano que ele recebeu estava muito além
do que ele podia agüentar e seu corpo espiritual começou a se desfazer.
Raios de luz saíam de dentro de seu corpo como se o estivessem cortando
em pedaços. Sephiroth foi destruído. O pesadelo de Cloud, que
começou há cinco anos em Nibelheim, finalmente acabou.
A Luz que não estava mais obstruída imediatamente começou
a agir.
Desta vez, Cloud havia se separado de seu corpo e estava num estado de mente
ausente, mas, no abismo do mundo de Mako, ele viu uma mão para guiá-lo.
Era branca e delicada. Lembrava a mão que lhe deu uma flor em Midgar.
Inconscientemente, ele estendeu sua própria mão de encontro a
ela...
Sua consciência retornou ao corpo. A mão de Tifa o segurava enquanto
o solo se partia embaixo dele.
Se a mão não estivesse lá para guiá-lo, então
ele estaria no fundo do Inferno agora. Foi uma ajuda e tanto. Cloud percebeu
que havia sido salvo.
Mas era tarde demais.
Midgar estava prestes a se tornar o ponto de impacto para o Meteoro dos céus,
e ele já estava perto demais do solo. A força gravitacional entre
o Planeta e o Meteoro gigante criou furacões que impiedosamente devastaram
os pratos da cidade superior. Como resultado, a energia de Luz que ficava entre
o Planeta e o meteoro só aumentou o poder destrutivo entre os dois ao
invés de ter o efeito que supostamente deveria ter.
Continuando assim, não apenas os moradores de Midgar que se refugiavam
nos subúrbios se envolveriam, mas o Planeta seria tão danificado
que ficaria além da recuperação. O plano de Sephiroth havia
sido detido, mas todos sabiam que o pior ainda estava por vir.
O Planeta estava indo de encontro ao fim.
“Emprestem-me seu poder, todos!”
Aerith gritou. Suas ondas de pensamento se espalharam pelo mar de Mako. Carregadas
pelo Lifestream, se espalharam pelo Planeta.
“Não posso fazer isso sozinha. Vamos todos proteger o Planeta!”
O chamado da última Cetra atraiu as incontáveis consciências
que ela havia despertado durante sua jornada. A consciência do Planeta
inteiro foi despertada. É claro, entre elas também estavam as
consciências daqueles que estavam suspensos por seus pecados. Com suas
fortes vontades combinadas, eles conseguiram controlar a enorme energia do Planeta.
“Eu estava esperando por isso! Vamos ligar o fusível e explodir
o meteoro de uma vez só!”
“É a vez da Divisão Lifestream da Avalanche! Agora que Barret
não está aqui, eu sou o líder!”
“Não! Eu queria ser líder também! Isso não
é justo, Wedge!”
“Vocês nunca são sérios, mesmo que sejam companheiros
de Barret. Vamos levar isso a sério e fazer direito, por Marlene.”
Sob esse comando, incontáveis feixes de luz apareceram na superfície,
unindo-se ao Lifestream. E então, cobrindo o Planeta e protegendo-o como
uma rede, o Meteoro teve o curso mudado de volta para o espaço sideral.
O movimento da Luz foi como uma Valquíria guiando seu exército
imortal pelos céus.
“Ei, Aerith, você viu a finalização de Cloud?”
Zack guiou sua energia para a segunda onda, quando o Meteoro foi jogado de volta
perdendo sua força.
“Aquela era uma técnica minha também. Isso não faz
você se apaixonar de novo?”
Com espaço o bastante, Luz agora começava a fazer efeito. Agindo
como uma barreira, as partes do Meteoro que entravam em contato com ela eram
transformadas em pó e jogadas no espaço. O Meteoro não
era mais uma ameaça ao Planeta e agora apenas esperava indefeso para
ser destruído.
O Planeta escapou da destruição.
Os pensamentos de Aerith foram libertados.
A bordo da Highwind, Cloud viu tudo. E também Tifa, Barret e os outros.
Eles viram o sorriso de Aerith, que nunca deixou suas memórias, aparecer
no Lifestream e gentilmente desaparecer, enquanto retornava ao Planeta.
Enquanto o tempo começava a se mover de novo, a tristeza de todos parecia
ter curado um pouco.
E então, as memórias de vida que o Planeta criou continuaram.
Continuaram para o nascimento de uma nova era...